Terceira Via não está morta

Apesar de de pouco apelo popular, agenda centrista de responsabilidade social e fiscal deve ser influente nas eleições de 2022.

Fernando Dantas

25 de maio de 2021 | 10h17

O candidato, ou a candidata, de terceira via para a eleição presidencial de 2022 ainda não surgiu, e há dúvidas se haverá algum nome competitivo fora da polarização entre bolsonarismo e petismo.

De qualquer forma, há indiscutivelmente uma agenda socioeconômica de terceira via, que é um parâmetro forte para formadores de opinião e o establishment em geral, e que estará presente na eleição do próximo ano – caso haja ou não um candidato decidido a apoiá-la.

Na verdade, Lula e até Bolsonaro podem, na campanha de 2022, endossar parcial ou totalmente a agenda socioeconômica da terceira via. Não se quer dizer que é provável que isso ocorra, mas sim que o debate político no Brasil é tão pouco programático que mesmo adversários ferozes podem, se quiserem, reclamar para si a mesma plataforma.

E qual é a agenda socioeconômica da terceira via? Basicamente, é a de retomar o fio da meada dos melhores momentos de gestão pública da redemocratização, que ocorreram em distintos governos.

Foi quando se procurou combinar responsabilidade fiscal e social, com políticas macroeconômicas sólidas e foco em reduzir a pobreza e a desigualdade.

O auge dessa agenda foi atingido no primeiro mandato de Lula, o que o torna em tese um candidato que poderia facilmente abraçar a plataforma da terceira via, mesmo sendo visto como representante de um dos polos hoje em combate.

Existe, porém, um complicador na agenda da terceira via: o crescimento econômico. Sem um ritmo acelerado de expansão do PIB, o combate à pobreza e à desigualdade como objetivo sustentável de médio e longo prazo se torna inviável. Isso implica, claro, que o crescimento forte tem igualmente que ser sustentável.

Não foi à toa, portanto, que o melhor momento do governo Lula foi justamente quando o superciclo de commodities acelerou o crescimento brasileiro para um ritmo bem superior ao da média das últimas décadas.

Há um debate entre os economistas sobre os caminhos para o Brasil acelerar o crescimento econômico. Na ponta mais ortodoxa, acredita-se que a receita é arrumar a casa macro e microeconômica e “deixar a coisa acontecer”.

Já economistas heterodoxos creem na necessidade de um “algo mais”, que vai de um mix mais estimulante de políticas fiscal, parafiscal e monetária até políticas industriais.

Quando se pensa na agenda socioeconômica de terceira via, o que define a inclusão nesse campo não é o lado do debate descrito acima, mas sim a razoabilidade do que se propõe.

É possível pensar em mudança do teto de gastos, alguma gestão de demanda, ampliação e ordenamento do investimento público e políticas de incentivo tecnológico combinando-se com ajuste fiscal de médio e longo prazo e controle da inflação.

Por outro lado, pregar a volta do Estado desenvolvimentista (à la Ciro), a inexistência de restrição fiscal, “mágicas” com a dívida pública e o fim do sistema de metas de inflação é claramente uma postura hostil à terceira via socioeconômica no caso brasileiro.

No campo oposto, propostas de um liberalismo radical e antiquado, caras ao ministro Paulo Guedes, mas que ele nunca conseguiu emplacar, também se afastam da razoabilidade centrista. Aqui se podem citar iniciativas privatizantes de serviços tradicionais do Estado como saúde e educação básica.

A terceira via de políticas econômicas e sociais tem baixo apelo eleitoral no Brasil, ainda mais se considerando o momento de polarização pelo qual passa o País.

Entretanto, como já mencionado, depois de hecatombes econômicas, como a recessão de 2015-16 e a estagnação que se seguiu, e políticas, como a experiência do bolsonarismo no poder, existe no establishment, nas elites política e econômica, na mídia mais respeitável e em boa parte dos formadores de opinião um consenso a favor de moderação, racionalidade e combinação de responsabilidade fiscal e social.

Quer queiram ou não, os candidatos em 2022 serão medidos por essa régua. Não será preciso se submeter a ela para se eleger, porque o eleitorado estará consumido por outras paixões, mas será muito difícil governar com sucesso ignorando-a.

Há pelo menos a esperança de que algum ou alguns dos candidatos competitivos no próximo ano, mesmo que não façam da terceira via uma arma de campanha, busquem não se distanciar dessa visão socioeconômica que marcou os melhores momentos do País desde a redemocratização.

A terceira via pode não ser um sucesso estrondoso de público, mas ela está longe de morta em termos políticos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com) 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/5/21, segunda-feira.