Tirando a lição errada

Foi um erro de Parente e do governo não agir antecipadamente para evitar o xeque mate dado pela greve dos caminhoneiros. Mas um erro muito maior é não entender que a pior perda desta crise pode vir a ser a de jogar fora os grandes avanços, para a Petrobrás e para o Brasil, que a gestão competente de Parente estava trazendo.

Fernando Dantas

01 Junho 2018 | 18h10

O prêmio Nobel Robert Shiller vem enfatizando nos últimos anos a importância das narrativas, inclusive como fatores que contaminam a psique coletiva e movem os mercados e a economia. Num país vivendo momentos de intensa turbulência como o Brasil de hoje, é interessante (e às vezes deprimente) observar o nascimento de narrativas que influenciam não só os mercados e a economia, mas a própria política.

Com a demissão anunciada há pouco de Pedro Parente da presidência da Petrobrás, uma forte narrativa disseminada a partir da greve dos caminhoneiros tende a se cristalizar.

Por essa visão, Parente – e toda a cúpula dirigente da Petrobrás que, na sua maior parte, encampou o projeto do ex-presidente – errou por exagerar a dose de “neoliberalismo” no comando da estatal. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A Petrobras tem que ser gerida como uma empresa que busca o lucro, mas também tem que ter sensibilidade para questões sociais e políticas que influencia diretamente.

Essa narrativa tem seus aspectos corretos. É verdade que o sistema de mudanças superfrequentes dos preços dos combustíveis, em função das variações da cotação do petróleo e do dólar nos mercados internacionais, criou um problema de imprevisibilidade de ganhos ou perdas a cada contrato para os caminhoneiros.

E é verdade também que os caminhoneiros são uma peça central na logística nacional e uma categoria conhecida internacionalmente pelo seu imenso poder de barganha. O superinvestimento em caminhões, na esteira dos juros reais suberbaixos e até negativos do PSI do BNDES, criou um excesso de oferta no setor, agravado pela crise econômica. A categoria era uma bomba relógio aproximando-se da explosão. A Petrobrás e o governo, talvez tomados por certa húbris gerencial, não perceberam a tempo o bólido que vinha em sua direção.

Como vários analistas notaram, era possível pensar em algum sistema tecnicamente bem formatado que suavizasse as variações do preço do diesel preservando em grande medida o “bottom line” da Petrobrás.

Não é 100% certo que isso conteria a crise. Um ajuste mais demorado também poderia ser muito maior, e um diesel que dá um enorme salto de um dia para o outro também poderia ser um gatilho para movimentos de caminhoneiros já em enormes dificuldades simplesmente pela conjunção de excesso de oferta, economia em marcha lenta e petróleo e dólar em alta (o que, em algum momento, inevitavelmente, tem que ser repassado para o combustível).

De qualquer forma, tentar atender às demandas dos caminhoneiros com alguma mudança na sistemática de preços aceitável para a Petrobrás era uma alternativa que não foi tentada a tempo, e isto constitui um erro inegável da estatal e do governo Temer.

Entretanto, certamente não vai muito mais longe do que isso o suposto meio termo entre a Petrobrás empresa com fins lucrativos e a Petrobrás com responsabilidades sociais e políticas que vão além daquelas que tipicamente são levadas em conta por qualquer empresa numa economia capitalista.

Assim como não existe meia gravidez, não existe empresa estatal que “meio que busca o lucro”.  O passado recente do Brasil é um exemplo gritante disso, e chega a ser enervante observar como as lições não foram aprendidas.

Desviada fortemente das funções típicas de empresa com fins lucrativos, a Petrobrás fez péssimos negócios, acumulou uma dívida calamitosa, chafurdou em esquemas de corrupção de dimensões obscenas e destruiu sua reputação global.

O que Parente vinha realizando, com apoio entusiástico de parte expressiva dos quadros gerenciais e executivos da Petrobrás, era justamente desfazer esses estragos pelo caminho quase óbvio – mas nem por isto fácil – das melhores práticas internacionais.

Isso significa reduzir o endividamento para diminuir o custo financeiro e viabilizar uma trajetória de investimentos à altura das formidáveis oportunidades oferecidas pela exploração e produção de petróleo e gás, a área onde a estatal é mais lucrativa, mais competitiva e está na fronteira tecnológica.

É uma estratégia que faz todo o sentido não só para os acionistas da Petrobrás, mas também para o Brasil. Significa mais receitas petrolíferas no longo prazo, cuja parte do leão fica com a União, mais dividendos para o governo, maior valor de mercado da Petrobrás (com reflexos positivos no balanço do setor público) e especialização produtiva e tecnológica, que é o que caracteriza os países avançados.

Obviamente, esse plano de voo envolve o desengajamento das áreas em que a Petrobrás não é nem lucrativa nem faz muita diferença em termos de competitividade e tecnologia. A saída parcial do refino doméstico e a tentativa de criar competição neste setor fazem parte dessa estratégia.

Dessa forma, o preço da Petrobrás despencou nos últimos dias não por causa do fato de que “caiu a máscara” de Parente, o “queridinho do mercado”. Muito pelo contrário, a desvalorização da empresa acontece porque, por causa de um erro específico e localizado (mas que tomou enorme proporção política por ter criado um grande abalo econômico circunstancial, mas nem de longe estrutural), o ótimo plano de voo de Parente para a Petrobrás está ameaçado. Pior que uma crise grave é tirar a lição errada de uma crise grave. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/6/18, sexta-feira.