Tiro n’água no Caged

Projeções sobre emprego formal em maio passaram longe do resultado efetivo (que foi "menos pior"). O economista Bruno Ottoni, da IDados, acha que a importante mudança na forma como os dados são coletados, a partir de janeiro, pode explicar porque os analistas erraram tanto.

Fernando Dantas

02 de julho de 2020 | 20h33

Os analistas do mercado e das consultorias acertaram bem mais a pontaria na taxa de desemprego da PNADC de maio, divulgada na terça-feira (30/6), do que no saldo líquido do emprego formal do Caged do mesmo mês, divulgado na segunda (29/6).

No caso da PNADC, as estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast iam de um desemprego mínimo no trimestre até maio de 12,3%, e um máximo de 14,8%, com mediana de 13%. O resultado veio em 12,9%.

No  Caged, porém, os analistas erraram feio. As projeções para maio variavam de um saldo negativo mínimo de 417 mil e máximo de 1,435 milhão, com mediana de -900 mil. A perda líquida de postos formais, no entanto, foi de 331.901, significativamente abaixo da aposta mínima de recuo do mercado.

Evidentemente, o ambiente confuso e pleno de incertezas da pandemia dificulta a projeção de indicadores econômicos em geral, e do mercado de trabalho em particular.

No entanto, no caso dos erros de projeção do Caged, pode estar pesando também uma importante mudança na série do indicador, como aponta Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação.

Até o ano passado, as empresas formais tinham duas obrigações que em parte se superpunham. Em termos do Caged, era preciso preencher os formulários físicos sobre contratações e desligamentos de empregados, digitalizá-los e enviá-los à Secretaria do Trabalho do Ministério da Economia.

Mas as empresas também tinham que inserir dados no sistema denominado eSocial, que incluíam igualmente informações sobre funcionários admitidos e que se desligaram.

Com o objetivo de simplificação burocrática, uma portaria estabeleceu um cronograma de transição para que as empresas passassem apenas a alimentar o eSocial, descontinuando o preenchimento dos formulários do Caged.

Isso aconteceu a partir de janeiro, o que resultou em problemas de coleta e organização dos dados e fez com que a divulgação do Caged ficasse paralisada durante vários meses. Os números, relativos aos quatro primeiros meses do ano, foram divulgados apenas em maio.

Ottoni, observa, no entanto, que a série mudou. O governo está chamando os dados agora de “novo Caged”, mas se trata, na realidade, de informação extraída do eSocial que, como nota o economista, tem diferenças metodológicas em relação ao “velho Caged”.

No Caged original, as empresas não eram obrigadas a informar a admissão e demissão de funcionários temporários, mas podiam fazê-lo. O resultado é que havia dados sobre temporários, mas que tendiam ser subnotificados, segundo Ottoni. Já no eSocial todas as contratações e todos desligamentos de temporários têm que ser incluídos obrigatoriamente.

Outra diferença é que as penalidades no caso de omissão de informações no eSocial são mais severas que no antigo Caged, o que também é um fator que pode induzir a mais subnotificação neste último.

Ottoni explica que, especificamente em relação aos temporários, a quantidades de admitidos e desligados no eSocial tendem a ser maiores do que no Caged, o que naturalmente faz com que o número total de admitidos e desligados também tenha a mesma tendência.

Essa particularidade foi notada pela Secretaria do Trabalho do Ministério da Economia (quando houve a transição entre os dois sistemas), que inclusive retroagiu os dados do “novo Caged” até o início de 2019.

De qualquer forma, essas diferenças entre admitidos e desligados nas duas séries não variam de forma paralela e idêntica, de maneira que o saldo também pode mudar bastante de uma para outra.

A diferença também pode afetar o padrão de sazonalidade da série, observa Ottoni, como nos meses finais do ano, quando entre setembro e dezembro são contratados e dispensados um grande número de empregados temporários. Essa flutuação sazonal de contratações e desligamentos pode se intensificar com os dados do eSocial, em que todos os temporários têm que ser incluídos, explica o economista.

Assim, a dinâmica da série mudou e, em consequência, os modelos de projeção baseados nos resultados passados do Caged podem ter sido bastante prejudicados. O próprio Ottoni, que faz projeções dos indicadores do mercado de trabalho em suas atividades na IDados, relata que está enfrentando dificuldades para fazer estimativas sobre os resultados futuros do Caged.

“Não acho que seja obra dos acaso que as projeções do Caged de maio tenham sido tão erradas – estamos não só numa crise sem precedentes, mas também houve uma mudança sem precedentes na série”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/6/2020, terça-feira.