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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Todos os motores rugindo

Recuperação sincronizada da economia global ajuda o Brasil.

Fernando Dantas

17 de janeiro de 2018 | 17h28

O cenário positivo nos mercados do Brasil é em grande parte reflexo de um ambiente externo favorável que vai se consolidando neste início de 2018. Ontem, na abertura do Fórum Financeiro da Ásia, em Hong Kong, David Lipton, vice-diretor-gerente do FMI, declarou que “a recuperação cíclica da economia global está ficando cada vez mais forte, e os sinais indicam crescimento mais forte em todas as regiões”.

Já se ouvem análises de que, pela primeira vez desde a grande crise global de 2008 e 2009, há a possibilidade de que as principais economias do mundo superem o que foi chamado, no período pós-crise, de “new normal” (nova normalidade) – isto é, um crescimento baixo e insuficientemente inclusivo, como define, em recente artigo no Financial Times, Mohamed El-Erian, o conhecido economista e financista que hoje é o principal assessor econômico do grupo Allianz.

El-Erian não afirma que o mundo avançado superou o “new normal”, mas sim que aumentaram as chances de um desfecho positivo no cenário de alternativa binárias que ele identifica. O lado negativo seria a continuidade do crescimento anêmico e pouco inclusivo, que gera tendências sociais, políticas e institucionais propícias para a sua própria continuidade, isto é, o ambiente polarizado e radical que leva a políticas econômicas equivocadas e intensifica os riscos geopolíticos.

O cenário positivo, claro, é a aceleração econômica com “um círculo virtuoso entre consumo, investimento corporativo e comércio internacional”, nas palavras do economista.

Se essa superação da fase do “new normal” de fato for uma tendência consistente, e não mais um soluço, ela estará se dando em bases novamente muito favoráveis a economias emergentes promissoras, mas com vulnerabilidades, como o Brasil.

A vantagem mais direta e mais óbvia, como observa um gestor do mercado financeiro nacional, é que “o crescimento mascara os problemas estruturais”. Isto é, numa conjuntura em que tanto o mundo como o Brasil crescem, os investidores tendem a dar mais tempo para que o País ponha a casa fiscal em ordem.

Outra vantagem da atual retomada global é que, apesar de os quatro principais motores (EUA, Europa, China e Japão) estarem rugindo simultaneamente, em diferentes intensidades, é claro, dois componentes importantes, Europa e Japão, estão ainda numa fase bem retardada do ciclo monetário.

Em outras palavras, por um lado, os Estados Unidos já inverteram há bastante tempo a alavanca da política de “afrouxamento quantitativo” (isto é, injeção de liquidez pela compra pelo BC de títulos de longo prazo do mercado) e já começaram a subir a taxa básica de juros. Por outro, Europa e Japão ainda nem saíram da fase ativa do afrouxamento quantitativo.

Isto significa que ainda há muita liquidez sendo bombeada e o crescimento global não está levando até agora a uma empinada abrupta e perturbadora das taxas de juros internacionais, o que seria o pior cenário para o Brasil. O fato de que o crescimento nos Estados Unidos não está produzindo até agora as pressões inflacionárias que muitos economistas esperariam é outro fator na mesma direção.

Mas no que talvez seja um desdobramento ainda melhor, o gestor mencionado acima nota que as curvas de juros das economias avançadas estão, sim, reagindo à aceleração econômica global e ampliando sua inclinação positiva. E aparentemente esse movimento não reduziu o apetite por ativos mais arriscados de países emergentes, talvez até pelo fato de que o movimento de ajuste das curvas de juros está se dando de uma forma ordeira e relativamente previsível.

Finalmente, as commodities estão subindo, e então se tem o cenário de sonhos para o Brasil: matérias-primas exportadas pelo País aumentando de preços, e taxas de juros internacionais ainda muito baixas (mesmo que tenham experimentado moderada elevação).

Há, evidentemente, diversos riscos: de bolhas, de erros de política econômica por algum grande player e os perigos geopolíticos habituais, do Oriente Médio à Coreia do Norte – El-Erian enfatiza esses pontos no seu artigo no FT.

E ainda existe o ambiente interno, com o risco eleitoral. O mercado por enquanto surfa a onda de que Lula será derrotado no TRF-4 em 24 de janeiro, e qualquer surpresa aqui pode ser um abalo. Outro fato positivo doméstico é que a retomada brasileira está vindo um pouco melhor do que a encomenda, isto é, do que se projetava há alguns meses. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/1/18, terça-feira.

 

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