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Tombini acha que austeridade já ajuda BC

Mais uma matéria com o colega Fernando Nakagawa em Davos. Desta vez sobre Alexandre Tombini, presidente do BC, que levou duas mensagens ao Fórum: a nova política fiscal já pode estar ajudando a política monetária a conter expectativas de inflação de longo prazo, e maior parte da América Latina, incluindo o Brasil, está preparada para cenário internacional mais adverso.

Fernando Dantas

26 de janeiro de 2015 | 20h14

Fernando Nakagawa

Fernando Dantas

Davos – A política fiscal mais rigorosa ajudará o Banco Central no esforço para levar a inflação de volta à meta. A afirmação foi feita nesta sexta-feira pelo presidente do BC, Alexandre Tombini. Ao ressaltar a complementariedade das políticas monetária e fiscal, ele admite que as medidas recentes anunciadas pela equipe econômica devem elevar ainda mais a inflação no curto prazo. O rigor fiscal, porém, tira um peso das costas do BC ao colaborar com o trabalho de estabilidade de preços em horizonte mais amplo.

“As políticas fiscal e monetária são independentes, mas elas têm complementariedade. Naturalmente, uma política fiscal consistente implementada de maneira rigorosa acaba por ajudar no processo de convergência da inflação para a meta”, disse durante entrevista na sexta-feira (23/1) no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Após meses de direções opostas das políticas fiscal – expansionista – e monetária – restritiva, o discurso sinaliza que a chegada de Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda deverá aliviar a carga de trabalho do BC no esforço de conter a inflação. Dias após aumentar o juro para 12,25%, Tombini ficou longe de comentar qualquer influência do “efeito Levy” na taxa Selic, mas destacou positivamente a queda das previsões de mercado para a inflação de médio e longo prazo.

“Temos visto algum impacto na expectativa de inflação de médio prazo com leve recuo para 2016, 2017, 2018 e 2019. Esse recuo não víamos há muito tempo”, disse Tombini.

As séries históricas da pesquisa Focus mostram que o recuo mais significativo nas previsões para a mediana do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acontece no cenário para 2018. A mediana para a inflação do último ano do governo Dilma caiu de 5,5% em 8 de janeiro para 5,2% oito dias depois, em 16 de janeiro. Para 2019, a aposta dos analistas caiu de 5,06% em 9 de janeiro para 5%.

As quedas, porém, pararam por aí. As expectativas de 2017 não caíram ainda, e estão no pico de 5,5% desde maio de 2014.As expectativas de 2016 também estão praticamente estáveis. Eram de 5,56% no início de novembro, subiram para 5,7% e permaneceram neste nível, com exceção de dois dias, 9 e 10 de dezembro, quando tiveram uma pequena alta para 5,75%.

Nos seus compromissos em Davos, uma das principais mensagens de Tombini tem sido a de que a maioria dos países da América Latina está bem melhor preparada hoje para um novo ciclo de elevação de juros nos Estados Unidos – que se combina com uma queda do preço de commodities e cria pressões de desvalorização cambial – do que esteve em eventos similares no passado. Ele tratou do tema em almoço do Fórum ontem sobre as perspectivas da América Latina, e voltou ao assunto em entrevista à imprensa.

“As perspectivas para América Latina este ano são desafiadoras, mas eu me mantenho cautelosamente otimista”, disse Tombini. Segundo o presidente do BC, boa parte dos países latino-americanos exibe hoje arcabouços de política econômica mais sólidos, indicadores fiscais preservados, câmbio flutuante para absorver choques e reservas para evitar volatilidade excessiva nos movimentos cambiais.

“Ajustes antes de ser atingido por uma turbulência não são um comportamento típico da América Latina – desta vez as autoridades estão muito conscientes e isto é muito louvável, elas estão se antecipando, tomando medidas antes do evento”, analisou Tombini.

Para ele, o baixo crescimento atual da região se deve em parte ao processo de ajuste em economias chave, como a brasileira.

Tombini considera que a economia global tende a se beneficiar de maior previsibilidade à medida que decisões cruciais em economias centrais sejam tomadas, aliviando as ansiedades que a expectativa produz. Ele citou o anúncio do programa de afrouxamento quantitativo na zona do euro como um evento deste tipo, sendo que o próximo será o início da elevação da taxa de juros básica americana.

O presidente do BC comentou que não só México, América Central e Caribe se beneficiam com a retomada dos Estados Unidos, mas também a América do Sul, da qual a maior economia do mundo é uma tradicional parceira comercial e de investimentos. Ele notou ainda que a queda das commodities afeta menos as commodities agrícolas, que ainda têm perspectiva de preços acima da média histórica.

“No Brasil, certamente estamos fazendo a nossa parte de forma muito resoluta esta vez; combinando flexibilidade, qualidade do arcabouço de política econômica e determinação das autoridades, países latino-americanos como o Brasil podem tirar vantagens (do processo de ajuste) e esperar crescimento maior e mais sustentável a partir de 2016”, resumiu Tombini.

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