Tombini e os fluxos

Fernando Dantas

18 de maio de 2014 | 20h57

Uma pergunta dirigida por Alexandre Tombini a Erdem Basci, presidente do BC da Turquia, foi, para diversos analistas presentes ao segundo e último dia do Seminário Anual de Metas para a Inflação (na sexta-feira, 16/5, no Hotel Sofitel, no Rio), mais importante do que todo o discurso de encerramento do presidente do Banco Central do Brasil. Tombini perguntou se Basci estava preocupado com as medidas de expansão de liquidez que o Banco Central Europeu (BCE) deve tomar em junho. Os analistas acham que, na verdade, o próprio Tombini pode estar preocupado com o possível aumento de fluxos (provocado pela expansão de liquidez na zona do euro) para o Brasil, e a consequente valorização do câmbio.

Na verdade, a valorização do câmbio até ajuda no combate à inflação (o que é  bom para o BC), mas se é causada por capitais especulativos pode trazer instabilidade, além de estimular o aumento do já elevado déficit em conta corrente.

Mario Draghi, presidente do BCE, já deu sinais claros de que serão tomadas medidas de expansão monetária não-convencional na zona do euro em junho, e a hipótese mais considerada é a da cobrança de juros negativos nos depósitos dos bancos junto ao BCE. Isto, naturalmente, é para tentar forçar os bancos a emprestarem, mas, como no caso das medidas de expansão de liquidez nos Estados Unidos, o efeito também pode incluir saída de capitais da Europa para outros mercados.

Basci respondeu a Tombini que as esperadas medidas do BCE devem ajudar a recuperação da Europa, de cuja economia a Turquia é muito dependente, e portanto são positivas. Mas ele também manifestou preocupação com a possibilidade de uma apreciação artificial da lira turca.

Havia grande expectativa em relação ao discurso de encerramento do presidente BC, com a ideia de que ele poderia dar alguma pista sobre os próximos passos da política monetária no Brasil. Mas Tombini não falou rigorosamente nada que pudesse alimentar as apostas e especulações do mercado.

O presidente do BC traçou um cenário global de recuperação, mas que ainda inspira cuidados. Sobre o tema de discussão do último painel do seminário, a normalização monetária nos países ricos, Tombini ressaltou que o Brasil e a maioria dos países da América Latina estão preparados, com “fundamentos econômicos e financeiros sólidos”.

Tombini também se posicionou na discussão sobre os instrumentos excepcionais usados pelos BCs dos países avançados durante a crise e a chamada Grande Recessão que se seguiu: as injeções de liquidez conhecidas como afrouxamento quantitativo e a “orientação prospectiva” (“forward guidance”), quando o BC condiciona as suas ações futuras à evolução de alguns indicadores (como não subir os juros enquanto o desemprego ficar acima de um determinado nível).

Para o presidente do BC, a orientação prospectiva deve ser incorporada ao arsenal dos BCs depois da completa normalização pós-crise, por “reduzir a incerteza em relação à função de reação dos bancos centrais”. Já o afrouxamento quantitativo, ao qual Tombini se referiu como “utilização do balanço dos bancos centrais”, cumpriu uma função importante de ajudar a baixar os juros longos, na sua visão, mas traz riscos financeiros para os BCs. Por isso, ele se declarou “cético” em relação a este instrumento, o mesmo que o BCE parece próximo de utilizar para evitar a deflação na zona do euro.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na sexta-feira, 18/5/14.

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