Trabalho em casa e o “choque do zoom”

Estudos investigam o impacto do trabalho em casa durante a pandemia (do qual uma parte pode sobreviver à Covid-19) em diversos aspectos da economia, da produtividade, comparada ao trabalho no escritório, fábrica ou loja, à localização de estabelecimentos de serviços, como bares, restaurantes, salões de beleza, academias etc.

Fernando Dantas

17 de março de 2021 | 13h38

Uma das mudanças mais marcantes da pandemia foi o aumento do trabalho em casa, por razões óbvias. Hoje, especula-se que, depois de totalmente superada a Covid-19 em termos sanitários, uma parcela pelo menos do trabalho em casa que surgiu na pandemia seja mantida. A razão é que empresas e trabalhadores podem considerar que essa forma de trabalho é mais conveniente em certas funções e tarefas.

Dessa forma, entender o que significa o trabalho em casa em termos econômicos é bastante relevante, e diversos estudos têm sido feitos recentemente.

Um deles é do economista Masayuki Morikawa, presidente do RIETI, think-tank japonês.

Com a pandemia, a possibilidade de que uma parte substancial do trabalho e da produção de valor nas economias possa se mudar da fábrica, escritório ou loja para casa tornou-se um trunfo para um país ou uma região.

De maneira geral, trabalhos e tarefas de maior qualificação são mais adaptáveis ao trabalho em casa do que os de menor. Isso poderia ser uma de várias explicações, por exemplo, para que o Estado de São Paulo tivesse em 2020 uma alta de 0,4% do PIB, comparada à uma queda de 4,1% para o Brasil como um todo.

No seu estudo, Morikawa faz uma investigação mais detalhada sobre o trabalho em casa, pesquisando junto a uma amostra de 1.579 empresas japonesas, dos mais variados setores.

Desse total, quase 50% das empresas utilizaram o trabalho de casa na pandemia. Nessas firmas, 31% dos empregados adotaram a prática, trabalhando de casa em média 3,67 dias por semana.

A partir desses três índices, o economista calcula a “intensidade ponderada” do trabalho em casa, que na média foi de 11% entre as firmas consultadas. O setor com maior intensidade de trabalho em casa foi o de informação e comunicação, com 44,6%, e o de menor, previsivelmente, foi o varejo, com 3,9%.

Segundo o autor, “a contribuição do trabalho de casa para a oferta de trabalho é surpreendentemente pequena, mesmo no período em que o trabalho de casa chegou ao seu pico”.

Em termos de produtividade, a pesquisa baseou-se na resposta das próprias empresas, para concluir que a produtividade média do trabalho em casa foi de 68%, comparada com o indicador no local de trabalho.

Os níveis reportados foram semelhantes em diferente setores, como manufatura, atacado, varejo, serviços e outros setores, todos numa faixa de 60% a 70% da produtividade do ambiente de trabalho. A exceção foi informação e comunicação, em que a produtividade do trabalho em casa atingiu 80,3%.

As empresas também relataram quais foram os principais problemas que diminuem a produtividade do trabalho em casa, comparada à do ambiente de trabalho. Em ordem decrescente de importância, estão telecomunicações de menor qualidade em casa, tarefas que só podem ser feitas no ambiente do trabalho por questão de regras e regulação, tarefas que só podem ser feitas no local de trabalho mesmo não havendo proibição de que sejam realizadas em casa, e dificuldade de concentração por causa da presença de membros da família.

Em outro estudo recente, um grupo de pesquisadores trabalhando no Reino Unido (Gianni de Fraja, Jesse Matheson, James Rockey e Daniel Timms) investigou as mudanças durante a pandemia na geografia dos chamados serviços consumidos localmente, como restaurantes, bares, hotéis, salões de beleza, barbeiros e academias.

Muitos desses serviços são usados por pessoas que trabalham nos seus arredores, e que almoçam no restaurante perto do escritório, vão à academia antes do trabalho, cortam o cabelo entre duas reuniões ou tem uma “happy hour” no final do dia. Pessoas em viagens de negócio também costumam se hospedar perto de seus escritórios ou locais de trabalho.

Com o aumento do trabalho em casa durante a pandemia, naturalmente esses serviços sofreram forte impacto. E, com a possibilidade de que, pós-pandemia, uma parcela do trabalho em casa permaneça, esse efeito pode ser duradouro.

Os autores chamam o efeito do aumento do trabalho em casa sobre os serviços consumidos localmente de “zoomshock”, ou “choque do zoom”, em referência à conhecida plataforma para reuniões online.

Eles citam estimativa de que, no final de 2020, uma parcela de 30% dos trabalhadores no Reino Unido estava trabalhando em casa, número similar ao dos Estados Unidos.

Ao autores verificam – e mapeiam e medem o efeito – que o “choque do zoom” reduziu a demanda por serviços consumidos localmente em bairros urbanos, e aumentou nos bairros suburbanos. Os primeiros são onde tipicamente trabalham pessoas de classe média em muitos países desenvolvidos, e os últimos são onde tipicamente moram.

O equivalente em cidades como Rio e São Paulo seria a mudança da demanda por esses serviços do centro da cidade para bairros mais habitacionais. Na Inglaterra, onde foi conduzido o estudo, a oferta desses serviços é maior justamente nos bairros urbanos, e menor nos suburbanos. O Brasil tem uma configuração diferente, mas efeitos semelhantes podem ocorrer.

Em termos de políticas públicas pós-Covid-19, notam os autores, a pergunta crucial é saber quanto do trabalho que foi para casa na pandemia vai permanecer assim depois que ela passar. Para eles, é improvável que os centros urbanos retornem à demanda por serviços consumidos localmente que prevalecia antes da Covid-19.

Assim, deve-se evitar políticas públicas indiscriminadas de apoio a estabelecimentos de serviços consumidos localmente afetados pela pandemia, porque a sobrevivência de parte desses negócios provavelmente será impossível.

“Esses negócios devem ser encorajados a se mudar para bairros em que o ‘zoomshock” foi positivo”, concluem os autores.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/3/2021, terça-feira.