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Trabalho prossegue em queda

Apesar de apresentar tendência menos brusca, Pnad Contínua confirma retrato do mercado de trabalho que aparece em outros indicadores.

Fernando Dantas

08 de junho de 2015 | 18h18

Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgados em 3/6/15, quarta-feira, e referentes ao trimestre de fevereiro, março e abril, confirmam o retrato de um mercado de trabalho em desaceleração que já está registrado nos dados conhecidos da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), relativo aos empregos formais. Na Pnad Contínua, porém, o movimento parece menos brusco – para alguns analistas, isso pode dever-se inclusive ao fato de a pesquisa ser uma média móvel trimestral, o que suaviza as tendências.

Assim, apesar do aumento do desemprego, a população ocupada cresceu 0,7% na Pnad Contínua do trimestre até abril, comparado ao mesmo período do ano passado. A renda média real caiu 0,4% e a massa salarial subiu 0,4%. São sinais de um mercado de trabalho combalido, mas que não apresentam ainda quedas dramáticas como a revelada pelo Caged de abril, com perda de 97 mil vagas formais.

Com a defasagem típica entre pioras na atividade econômica e seu impacto no mercado de trabalho, a expectativa geral é de que também a Pnad Contínua venha a registrar deterioração mais acentuada. “Os dados da economia em maio e junho têm vindo muito ruins, e por isso há uma piora adicional contratada do mercado de trabalho que deve chegar em todos os indicadores, inclusive na Pnad Contínua”, diz um analista.

Já Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, buscou comparar o atual processo de piora do mercado de trabalho com outros episódios na história do País nas últimas duas décadas. Utilizando dados das Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, responsável pela PME e Pnad), como população e rendimento, a LCA reconstruiu a Pnad Contínua a partir de 1995 (a pesquisa oficial só tem dados a partir de 2012).

Borges nota que, com ajuste sazonal (também feito pela LCA), o desemprego da Pnad Contínua atingiu 7,5% no trimestre terminado em abril, o que representa um salto de quase um ponto porcentual em relação ao piso de 6,6% do primeiro trimestre de 2014. Já a renda real no trimestre até abril recuou 0,4% na comparação com o mesmo período, como mencionado acima.

A mais recente queda do mercado de trabalho, anterior à atual, foi em 2009, na esteira da crise global, e aconteceu de forma mais rápida. Segundo a série reconstruída da Pnad Contínua, foram precisos apenas três trimestres para que o desemprego aumentasse um ponto porcentual – um processo mais veloz que o de hoje, portanto. Por outro lado, por causa da chamada recuperação em “V” da economia, a renda real sofreu desaceleração, mas nem chegou a cair com a crise global.

O episódio mais violento em termos de mercado de trabalho na história recente foi a crise de 2002 e 2003, quando o desemprego médio se manteve acima de 10% por dois anos e a renda real chegou a cair cerca de 5% na comparação interanual da série reconstruída da Pnad Contínua.

Borges vê o desemprego subindo para o intervalo entre 8% e 8,5% este ano, com uma queda da renda real de 2% a 2,5%. Neste sentido, o episódio atual não deve nem se aproximar da severidade de 2003 nem ser tão ameno quanto 2009, e o economista encontra o melhor paralelo na crise de 1999. Nessa ocasião, pela sua série reconstruída da Pnad Contínua, a alta do desemprego foi de 1,5 ponto porcentual e a queda da renda real de cerca de 3,5%.

A grande diferença, porém, em relação a 1999, é que em 2000 a economia voltou a crescer 4,3% e agora a maior parte dos analistas – como ressalta o economista da LCA – não crê que nada parecido com isto aconteça em 2016 (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 3/6/15, quarta-feira.

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