“Transatlântico” do PIB foi atingido

Persistente queda da indústria e dos investimentos já afeta "transatlântico" do PIB, os serviços e o consumo das famílias.

Fernando Dantas

30 de março de 2015 | 16h47

O ano de 2014 foi o momento em que o “transatlântico” da economia brasileira foi atingido de forma mais firme pelos componentes mais cíclicos do PIB. O transatlântico corresponde aos serviços, pelo lado da oferta, e ao consumo da família, pelo lado da demanda – que abrangem respectivamente dois terços e 60% do PIB. Os componentes cíclicos são a indústria, pela oferta, e os investimentos, pela demanda. A análise é de Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP. O PIB do quarto trimestre (e, portanto, o PIB de 2014 que sai da série trimestral) será divulgado pelo IBGE na sexta-feira.

(esta coluna foi publicada antes da divulgação do PIB do quarto trimestre de 2014, e, portanto, a relevância das projeções mencionadas já foi sobrepujada pelos números efetivos, que foram afetados por ampla revisão metodológica; mas as análises qualitativas dos economistas ouvidos se mantêm inteiramente válidas)

Frisando que suas projeções de PIB ainda não incorporam as recentes mudanças metodológicas, Rocha projeta queda de 0,7% no quarto trimestre ante igual período de 2013, e de 0,1% contra o terceiro trimestre de 2014, na série dessazonalizada.

Para o último trimestre, na comparação com o mesmo período de 2013, as projeções são de queda de 3,4% da indústria e altas de 0,3% dos serviços e de 2% da agropecuária. Pelo lado da demanda, queda de 2,4% do investimento, estabilidade do consumo das famílias, alta de 2% do consumo do governo e quedas de 11% das exportações e de 7% das importações.

Rocha observa que suas projeções indicam queda de 6,2% do investimento em 2014 e de 2,1% na indústria – o que chama de componentes mais cíclicos. Já o consumo das famílias sobe 0,9% e os serviços, 0,7%.

A visão do gestor é de que a queda dos componentes cíclicos finalmente foi capaz de vencer de forma mais clara a inércia do transatlântico. Assim, o consumo das famílias desacelerou-se a partir de crescimentos de 3,2% em 2012 e 2,6% em 2013; e os serviços a partir de expansões de 1,9% em 2012 e 2,2% em 2013.

Ele explica que é da natureza do consumo e dos serviços moverem-se mais devagar e com muita inércia, mas quem dá a tônica da direção costuma ser a indústria e os investimentos. Assim, uma queda com recuperação muito rápida dos componentes cíclicos pode eventualmente não afetar muito o que chama de transatlântico. Mas a persistência da piora da indústria e dos serviços nos últimos anos acabou tragando para baixo a parte maior da economia.

Ele não enxerga nenhuma melhora em 2015, mas sim a continuidade do mesmo movimento em que os componentes cíclicos ampliam seu efeito nos componentes inerciais. Assim, com novas quedas fortes da indústria e do investimento, os serviços param de crescer e o consumo fica em apenas 0,3%. “Mas isso com nossa projeção de que o PIB caia 1,1%; se revisarmos o PIB para -1,5%, (o consumo e os serviços) devem resvalar para o território negativo”, diz o economista.

Qualquer sinal de recuperação da economia, acrescenta Rocha, virá dos componentes cíclicos, com sinais de recuperação da confiança e retomada na indústria e nos investimentos.

Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, chama a atenção justamente para o nível extremamente ruim dos índices de confiança. A sua projeção do PIB para o último trimestre de 2014 é de queda de 0,15%, com o resultado do ano zerado (ele frisa também que isto não inclui a revisão metodológica). Para 2015, a previsão é de queda de 1,3%, mas Brisola ressalva que este número está envolto em grande incerteza.

Ele nota que os modelos dos economistas incorporam cenários para as políticas monetária, fiscal e creditícia (podendo até incluir a parafiscal) e a influência do resto do mundo. O problema é que se supõe que os agentes econômicos reagirão a essas políticas e à influência externa na média do seu comportamento passado, “a sina de todos os modelos”.

O problema, acrescenta Brisola, é que “o que está acontecendo na confiança este ano é fora da média, o que torna difícil fazer projeções”.

Ele lembra inclusive que houve quem achasse que o investimento poderia ter alguma melhora relativa em 2015 pela desaceleração excessiva em 2014, mas os índices de confiança continuam apontando para baixo. Ele atribuiu a crise de confiança em boa parte aos problemas políticos bem conhecidos, com a Lava-Jato, manifestações, dificuldades na base governista, etc.

Na verdade, o economista acha que essa situação pode se agravar porque “o processo de perda de renda real está apenas no início”. Projetando 12 meses à frente os resultados recentes do Caged (o que obviamente é apenas um exercício para dar parâmetros, não uma previsão precisa), Brisola vê um desemprego da PME chegando a 8%. Esta piora do mercado de trabalho deve ampliar e consolidar a perda de renda real com o reajuste de preços administrados e do câmbio que, para ele, apenas começa a ser sentida pela população.

Por outro lado, o economista nota que a economia está passando justamente pelo ajuste que era preconizado por boa parte dos economistas, corrigindo as distorções provocadas pela alta real dos salários acima da produtividade, pelo câmbio muito valorizado e pelos preços administrados represados. Assim, é possível que, passado o ano muito difícil de 2015, o cenário melhore.

“O grande teste será a firmeza política por trás da atual política econômica”, conclui Brisola. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/3/15, terça-feira.

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