Trepidação econômica e política na Argentina

Ministro da Economia da confiança do presidente Alberto Fernández cai e é substituído por economista heterodoxa ao gosto da vice-presidente, Cristina Kirchner Fernández. O presidente argentino parece cada vez mais frágil.

Fernando Dantas

05 de julho de 2022 | 19h24

A Argentina entrou em fase de alta trepidação novamente. Com a substituição do moderado Martin Guzmán pela heterodoxa Silvina Batakis no Ministério da Economia, o presidente Alberto Fernández fica ainda mais enfraquecido diante da sua vice e principal sabotadora, a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Alberto Fernández era muito próximo a Guzmán, o quarto membro do Ministério a sair em alguns meses, sempre tendo como pano de fundo a pressão de Cristina para empurrar o governo na direção do populismo de esquerda.

A inflação na Argentina está por volta de 60% ao ano e o temor é que se aproxime dos três dígitos até a eleição presidencial em outubro de 2023. Apesar do ambiente externo favorável com commodities em alta e um bom desempenho na exportação, a Argentina perdeu reservas internacionais recentemente e o governo vem dificultando a saída de dólares do país.

A projeção de crescimento do PIB pelo FMI este ano é de 4%, mas a pobreza permanece em níveis extremamente elevados e a situação fiscal é frágil.

Guzmán conseguiu fechar uma renegociação de dívida externa de US$ 44 bilhões com o FMI, mas ainda há muitas etapas pela frente, e é difícil ver como o acordo poderá ser cumprido com uma ministra heterodoxa que quer expandir gastos e acredita que inflação se combate diversificando a economia.

Segundo o economista Fabio Giambiagi, do BNDES e do Ibre-FGV, brasileiro mas filho de argentinos e criado no país vizinho, “é muito difícil equacionar a questão econômica na Argentina sem uma nova configuração política”.

Ele vê o presidente Fernández em processo acelerado de se tornar um “pato manco”, expressão de origem norte-americana e que significa um mandatário esvaído de poder político, especialmente quando se aproxima o fim de mandato sem que tenha perspectiva de se reeleger.

Na verdade, o fim de mandato nem está tão próximo assim. Ainda faltam 13 meses para as eleições primárias, 16 meses para as eleições e 20 para a posse do novo governo.

O problema, na visão de Giambiagi, é que Cristina Kirchner, com o que o economista chama de “sua capacidade de destruição fabulosa”, minou tanto Fernández que este se aproxima de parecer um “banana”, um tipo de figura na história presidencial argentina pela qual o eleitorado do país tem ojeriza.

Um exemplo é Fernando de la Rua, que era presidente durante a crise do fim do regime de conversibilidade em 2000-2001, foi forçado a renunciar por causa dos protestos populares e se escafedeu da Casa Rosada, sede da presidência na Argentina, num helicóptero.

Não é provável agora que se chegue a esses extremos, mas Fernández está muito enfraquecido para conseguir conduzir uma campanha de reeleição bem sucedida.

Na verdade, como explica Giambiagi, o quadro sucessório argentino é muito complexo e confuso, com muitos candidatos potenciais tanto na situação como na oposição. Há grande incerteza sobre quem, após as eleições primárias cujo objetivo é justamente o de determinar as coalizões e chapas presidenciais, vai de fato concorrer à Casa Rosada no ano que vem.

A dúvida atinge a própria Cristina. No peronismo, há uma corrente crescente que a vê como candidata ideal, mesmo porque, como se viu no caso de Alberto Fernández, ela de certa forma ainda é quem manda.

Cristina, entretanto, coloca na sua estratégia eleitoral a necessidade de permanecer como senadora, o que ocorreria tanto no caso de se eleger como vice-presidente da República (que é presidente do Senado, pelas regras argentinas) ou concorrer diretamente àquele cargo pela Província de Buenos Aires.

Como senadora, ela tem imunidade parlamentar contras as muitas ameaças judiciais que pairam contra ela.

Do lado da oposição, cujas chances crescem com o aprofundamento da crise econômico-social, também há vários candidatos disputando a cabeça de chapa na coalizão que irá enfrentar os peronistas.

E, correndo paralelamente, há o ultraliberal Javier Milei, o candidato em tese “antissistema”, que traz riscos para oposição, na visão de Giambiagi, tanto se integrando na coalizão quanto partindo para o voo solo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/7/2022, terça-feira.