Tropas de assalto do bolsonarismo

Para os cientistas políticos Cláudio Couto (EAESP/FGV) e Octavio Amorim (Ebape/FGV), discurso de diretor da Força Nacional, Antonio Aginaldo de Oliveira, elogiando PMs amotinados do Ceará é extremamente grave.

Fernando Dantas

04 de março de 2020 | 18h35

Dois cientistas políticos ouvidos pela coluna, Cláudio Couto (EAESP/FGV) e Octavio Amorim Neto (Ebape/FGV) consideraram de extrema gravidade o pronunciamento do diretor da Força Nacional, Antonio Aginaldo de Oliveira, em que este classificou os policiais militares amotinados do Ceará como “gigantes” e “corajosos”.

Para Couto, o apoio do governo – já que Oliveira é um quadro do Executivo e não foi desautorizado por Bolsonaro – ao motim cearense reforça a sua preocupação, manifestada desde 2017, de que as PMs estaduais possam se tornar as “tropas de assalto” do bolsonarismo.

Se a expressão do cientista político remete às forças paramilitares nazifascistas dos anos 30, como as SA e SS alemãs, ou os camisas negras italianos, não é mera coincidência. Couto vê claramente traços fascistas no bolsonarismo, o que não significa uma previsão de que o Brasil vá desembocar numa ditadura totalitária, já que as condições históricas são outras.

Porém, para ele, o risco de que as PMs estaduais, atuando como “tropas de assalto”, sejam usadas num momento subsequente para intimidar opositores e mesmo governadores de oposição existe, e deve ser prontamente combatido.

Oliveira é coronel da PM cearense e se casou em fevereiro com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), uma das vozes mais estridentes do bolsonarismo no Congresso. Tampouco passou desapercebido para Couto que o superior hierárquico de Oliveira, o secretário nacional de Segurança Pública, general Guilherme Cals Teophilo Gaspar de Oliveira, foi candidato pelo PSDB ao governo do Ceará em 2018, tendo sido derrotado pelo atual governador Camilo Santana.

Como observa o cientista político, Oliveira é a autoridade responsável por reestabelecer a ordem e, num caso extremo, reprimir um motim de PMs como o ocorrido no Ceará. Ao elogiar a sublevação armada e ilegal, sem receber reprimendas de seus superiores, ele está estendendo o beneplácito do governo federal à atuação fora da lei da PM – um poderoso incentivo para que as políticas militares de outros Estados sigam pelo mesmo caminho.

Bolsonaro, por sua vez, fez toda a sua carreira política como defensor corporativo das polícias e Forças Armadas. Para Couto, os próprios elos, recentemente revelados, entre a família Bolsonaro e milícias no Rio de Janeiro podem ser entendidos a partir do apoio incondicional aos braços armados do Estado – no caso das milícias, pervertidos em organizações criminosas e homicidas.

Amorim, da Ebape, entende que a politização das forças policiais pode até ser compreensível, no sentido de reivindicação de interesses, mas acrescenta que “a atual partidarização é gravíssima”.

Por partidarização, ele se refere à adesão das PMs a uma corrente política atuante específica, o bolsonarismo, ainda que no momento sem partido.

O cientista político observa que uma coisa são grupos de esquerda e direita na rua trocando xingamentos e bandeiradas, e uma polarização intensa envolvendo valores e temas culturais. Outra, muito pior, são conflitos envolvendo grupos armados, o que, numa dimensão extrema, significa guerra civil.

Amorim acrescenta que esse é um terreno em que qualquer acidente ou descuido pode levar a consequências graves – as balas que atingiram o senador Cid Gomes são uma prova disto.

“É muita fagulha perto de um barril de pólvora, estamos falando do braço armado do Estado”, ele aponta.

Amorim considera também que há risco de uma ruptura na coalizão bolsonarista. Para ele, empresários que apoiam a política econômica de Paulo Guedes e a classe média conservadora, que gosta de lei e ordem, já começam a se inquietar com a estratégia presidencial de escalar os conflitos permanentemente.

Paralelamente, a cúpula militar, para o pesquisador da Ebape, está preocupada com a ruptura da hierarquia nas PMs, que poderia atingir até as Forças Armadas. O problema é que os militares estão entranhados no governo Bolsonaro – e inclusive extraindo vantagens corporativas e orçamentárias – e se mantêm em silêncio, o que pode parecer conivência com as forças da sublevação.

Ainda assim, Amorim crê que há preocupação com o rumo dos acontecimentos entre os generais no Planalto e fora do governo. Entre eles, o general Edson Leal Pujol, atual comandante do Exército.

Esse risco de ruptura na sua própria coalizão provocado pelo governo, para Amorim, ilustra o “alto grau de aventureirismo inerente ao bolsonarismo, com jogadas de extremo risco o tempo todo, deixando todo mundo com pé atrás, tentando resistir, às vezes recuando, na defensiva”. O que é típico também do fascismo, a coluna acrescentaria.

Tanto Amorim quanto Couto ressaltam que ações como o discurso de Oliveira não surpreendem, porque são um padrão deste governo, mas, mesmo sendo previsíveis, não perdem sua capacidade de chocar.

“Acontecimento extremamente graves viraram rotina, estamos normalizando a gravidade”, alerta Couto.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (Fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/3/20, terça-feira.