Tropeços conjunturais

Problemas econômicos atuais da China, como crise energética, e dos Estados Unidos são conjunturais, e podem atrapalhar, mas não abortar retomada econômica global, na visão de Samuel Pessoa.

Fernando Dantas

15 de outubro de 2021 | 11h20

Segundo recente relatório da BCA Research, empresa de pesquisa sobre a economia global, a crise energética da China está sendo causada por excesso de demanda, e não por problemas de oferta.

Na visão de Arthur Budaghyan, estrategista chefe de mercados emergentes da BCA Research e autor da análise, o excesso de demanda por eletricidade na China é causado principalmente pelo boom de exportações, e este, por sua vez, está ligado especialmente à demanda norte-americana por bens.

O que nos traz de volta a uma das questões básicas que provoca trepidações na economia mundial pós-pandemia: o grande desvio do consumo de serviços para bens.

A crer que esse fenômeno seja temporário, ainda que mais duradouro do que inicialmente se pensou, muitas das perturbações atuais –  como os próprios problemas energéticos na China e na Europa e os nós logísticos e de produção que represam a oferta de bens no mundo todo – poderiam ser caracterizadas como entraves conjunturais.

“Com as economias reabrindo, o padrão normal de consumo entre bens e serviços vai voltar, e isso vai passar, não é nada estrutural”, prevê Samuel Pessoa, chefe de pesquisa da gestora Julius Bër, referindo-se à crise energética na China e também a outros gargalos atuais da economia global.

Pessoa vem martelando a tecla da diferença entre crises econômicas “endógenas”, deflagradas por desequilíbrios gestados nas próprias economias, e “exógenas”, como a causada pela pandemia, cujo agente deflagrador, o coronavírus, veio de fora do mundo econômico. A crise financeira global de 2008-2009 foi um claro exemplo de crise endógena.

Já na crise atual, no caso dos Estados Unidos, como argumenta o economista na coluna Ponto de Vista da Conjuntura Econômica de outubro, “o tecido econômico está se reconstruindo após profunda mas curta recessão de dois meses e após recuperação  ainda incompleta e muito heterogênea entre os setores”.

Ele prevê que a crise da pandemia não deve provocar perda no nível de produto potencial dos Estados Unidos.

Para este colunista, Pessoa comentou o relatório do mercado de trabalho (“payroll”) dos Estados Unidos de setembro, divulgado na semana passada, que, com a criação de 194 mil postos de trabalho em termos dessazonalizados, decepcionou os analistas.

Poderia ser um sinal de fraqueza da retomada na principal economia do mundo, a colocar dúvida sobre a aposta do economista de uma retomada da normalidade econômica sem deixar cicatrizes no produto potencial.

Segundo Pessoa, no entanto, a recuperação do mercado de trabalho dos Estados Unidos após a perda de 20,7 milhões de empregos em março e abril de 2020 tira a relevância dos parâmetros de sazonalidade para se inferir o que de fato está acontecendo com o emprego.

“A sazonalidade perde muito do seu sentido quando você está reconstruindo uma economia depois que ela foi atingida por um meteoro”, diz o analista.

Ele tem dado preferência, na sua análise do mercado de trabalho norte-americano na saída da pandemia, ao “payroll” sem ajuste sazonal e o acumulado desta série em 12 meses. Em setembro, por exemplo, foram criados 654 mil empregos sem ajuste sazonal, um número mais respeitável.

Pessoa tomou o nível de emprego de fevereiro de 2020, atualizado pelo crescimento da população em idade de trabalhar (PIA), como parâmetro de algo próximo ao pleno emprego nos Estados Unidos.

Segundo seus cálculos, a população ocupada nos Estados Unidos tem reduzido a distância que a separa daquele parâmetro a um ritmo de 373 mil postos por mês, entre setembro de 2020 e de 2021. Nesse período, a PO saiu de um nível de 10,1 milhões postos abaixo do pleno emprego (naquele parâmetro) para 5,7 milhões. Mantendo o ritmo, o pleno emprego será atingido em 15 meses.

Pessoa nota que isso ocorreria cerca de um ano depois de o PIB americano voltar ao nível da tendência de crescimento pré-pandemia, marco projetado para o primeiro semestre do ano que vem. O mercado de trabalho chegando ao pleno emprego depois de o PIB alcançar a tendência, se for confirmado, sugere que houve algum ganho de produtividade nos tempos de pandemia, na sua visã.

O economista frisa que a força da onda da variante delta e os problemas energéticos e logísticos são tropeços na recuperação das principais economias do mundo, e não devem ser subestimados.

“Mas nada disso é estrutural”, ele conclui. A ressalva que Pessoa, faz, entretanto, é que as perturbações educacionais da pandemia podem efetivamente vir a ter impacto econômico um pouco mais além.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/10/2021, quarta-feira.