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Tucanos confusos sobre política econômica, de novo

Fernando Dantas

13 de novembro de 2013 | 22h57

O virtual candidato tucano à presidência da República, Aécio Neves, começa a repetir os primeiros passos da coreografia do partido em cada uma das últimas eleições presidenciais: basicamente, uma dança desajeitada em torno do tema crucial da política econômica, em que sucessivas oscilações, arrancos e recuos, afirmações e negativas compõem um quadro confuso para o eleitor. A resultante é que os tucanos não conseguem se afastar suficientemente do legado de FHC, que hoje é contraproducente em termos eleitorais, e tampouco oferecem uma agenda diferenciada que traga entusiasmo e frescor e possa atrair novos votos.

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É claro que este é um momento ainda muito inicial, em que estamos longe de ter uma campanha nas ruas. Assim, os ruídos produzidos pelas eternas angústias do PSDB em relação à política econômica atingem uma parte muito pequena do eleitorado, e não produzem nenhum estrago relevante. De qualquer forma, são sinais de que o partido ainda não vislumbrou uma forma de se desembaraçar da imagem negativa que o PT conseguiu, com muita habilidade política, associar à agenda moderadamente liberal que caracterizou o governo FHC.

Na área econômica, Aécio tem conversado com os “suspeitos de sempre”, como classifica ironicamente um economista próximo ao PSDB. São participantes de proa do Plano Real ou do governo de Fernando Henrique, como Edmar Bacha e Arminio Fraga, ou economistas de uma nova geração, mas que têm visões de mundo parecidas, como Samuel Pessôa, da gestora Reliance e da FGV-Rio, e Mansueto Almeida, do Ipea. Outra personagem importante é Elena Landau, ex-diretora do BNDES, participante da privatização tucana e hoje presidente do Instituto Teotônio Vilela (ligado ao PSDB), no Rio.

Em recente reportagem do Valor Econômico, alguns desses conselheiros expuseram suas ideias, e o que saiu foi a agenda “de sempre”, de um modelo econômico mais liberal, e que resgate uma política fiscal e monetária mais ortodoxa.

Aécio, porém, reagiu, declarando que “os economistas não são meus porta-vozes”, e que cada um deles fala das suas próprias convicções.

O candidato tucano, nas conversas com os economistas, ouve muito e fala pouco. Não fica exatamente claro com o que ele concorda, e o que pode vir a figurar numa plataforma eleitoral. Não há por enquanto um trabalho coordenado entre todos os economistas citados acima.

Seria possível deduzir, a partir do que foi mencionado, que Aécio, de forma cuidadosa e inteligente, está estudando detalhadamente o menu de sugestões de todos esses especialistas, que serão filtradas e adaptadas em um programa claro, com diretrizes sólidas, que darão base a uma campanha entusiasmante.

É possível, por outro lado, que o rol de propostas esteja simplesmente entrando em choque com o que os marqueteiros considerem palatável eleitoralmente. Neste caso, ao dizer que “os economistas não são meus porta-vozes”, Aécio estaria apenas reencenando a velha dificuldade tucana de se reconciliar com a sua própria identidade.

De qualquer forma, todos os economistas que vêm conversando com Aécio são figuras públicas, acostumadas a participar do debate, frequentemente com brilhantismo. Enfim, é um grupo cujas ideias são muito difíceis de ocultar até que o candidato tucano e seus marqueteiros superem os dilemas existenciais e concordem em afirmar com vigor uma determinada plataforma de planos para a economia.

Independentemente do que, finalmente, venha a ser a plataforma tucana, ela já está associada à visão de ortodoxia e liberalismo moderados que caracteriza o pensamento deste grupo de economistas há décadas. O candidato do PSDB deveria decidir logo se vai ou não enfrentar o enorme desafio de resgatar esta visão econômica, que tem pelo menos a virtude de ser um contraponto claro e sem subterfúgios à mal sucedida experimentação heterodoxa do atual governo depois da crise global.

O PT levou anos descontruindo a imagem da política econômica tucana. Aécio e seus marqueteiros não deveriam desperdiçar tempo com dúvidas e negações se a ideia é relançar essas ideias no pouco tempo que falta até as eleições de 2014. Isso não significa encampar qualquer coisa que os economistas liberais defendam, mas sim articular rapidamente um discurso econômico coerente e coeso, que aproveite o que é aproveitável e dispense que não é absorvível, e que seja empacotado de uma forma que remeta mais ao futuro do que à defesa do governo FHC.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com) 

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

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