Tucanos e a armadilha da privatização

Fernando Dantas

25 de outubro de 2013 | 00h31

O senador Aécio Neves, virtual candidato tucano à presidência da República, bem que está tentando. Mas parece ser muito difícil para o PSDB sair da armadilha montada pelo PT, com muito sucesso, em cima do tema da privatização.

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Esta semana, num discurso no plenário do Senado, Aécio investiu contra o leilão de Libra, dizendo, entre outras afirmações, que o governo de Dilma Rousseff fez “a maior privatização da história brasileira”.

Entende-se o sentido da fala do oposicionista. Como o PT é um crítico contundente das privatizações, Aécio está apontando o que seria a hipocrisia do partido no poder. Do ponto de vista do eleitorado, porém, devem importar mais as ações do que a coerência entre o discurso e as ações. O que se escolhe a cada eleição majoritária são executores, e não filósofos.

E a mensagem subliminar da fala do candidato tucano é inescapável: se ele está chamando a atenção para o fato de que o PT fez “a maior privatização da história”, é porque algo de errado deve haver em privatizar. Afinal, a oposição enfatiza as falhas do governo, e não os seus acertos.

Dessa forma, ao investir contra a suposta hipocrisia do PT, Aécio nada mais faz do que reforçar o discurso governista – que foi uma poderosa arma nas últimas eleições presidenciais – de que privatização é algo de que um político deve se envergonhar.

Para ser justo com o senador tucano, o seu discurso sobre o papel do setor privado em geral, e sobre Libra em particular, é bem mais amplo do que a frase sobre “a maior privatização da história”. Ele vem tentando discutir a desconfiança petista sobre o setor privado (e as perdas ao país causadas por isso), o uso político da Petrobrás e uma série de outros temas relevantes.

O cientista político Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), no Rio, nota inclusive que, no recente programa televisivo do PSDB, foi apresentado o pano de fundo de “uma agenda bem liberal”. Isso ficou claro na narrativa de histórias de vida como a do vendedor de picolé da Rocinha que se tornou dono de sorveteria, ou do peão que virou fazendeiro de soja. A ideia é de que a ascensão social não depende apenas da ajuda do Estado, mas também do esforço individual, que permite ao cidadão de origem pobre chegar ao momento de “devolver o cartão do Bolsa-Família”.

Tudo isso é coerente com a ideia dos tucanos de repaginar a sua imagem, superando o rótulo de partido dos ricos para encarnar uma centro-direita (dentro do espectro político brasileiro) que converse de uma forma diferente dos petistas com as aspirações de ascensão social dos pobres e da classe média baixa.

Essa estratégia tende a dar com burros n’água, porém, quando o recorrente tema da privatização volta ao debate. Pereira nota que o sucesso petista em criar uma imagem negativa para a privatização deriva de inclinações antigas e resistentes do eleitorado, como o instinto nacional-populista, forjado em campanhas como “o petróleo é nosso” na era Vargas. A isto se soma o fato de que as vantagens da privatização, como a melhoria de serviços e da eficiência da economia, são frutos de médio e longo prazo, enquanto os custos, como o enxugamento de postos de trabalho e as turbulências de transição de regime, tendem a ser mais imediatos.

O cientista político recorda que, na primeira derrota dos tucanos pelos petistas em eleições presidenciais, em 2002, o apagão de energia elétrica, atribuído em parte a uma privatização mal concebida do setor energético, ainda reverberava com força no eleitorado.

“O Serra (candidato tucano em 2002) não soube se defender, e o PT ganhou o debate”, analisa Pereira. No segundo turno de 2006, Lula brandiu com mais força ainda a bandeira anti-privatista, levando o candidato opositor, Geraldo Alckmin, ao episódio quase ridículo de vestir uma camiseta repleta de nomes de estatais.

Todo o discurso mais elaborado de Aécio sobre a questão do papel do setor privado se perde quando uma frase de efeito poderosa como “a maior privatização da história brasileira” rouba as manchetes e os títulos das matérias nos jornais e na Internet. De forma quase inconsciente, os tucanos ajudam a cristalizar de forma ainda mais forte a ideia de que a privatização da era FHC foi um triste capítulo da história econômica do País.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broacast

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