Tucanos e a dificuldade de defender seu legado

Pela primeira vez em várias campanhas, tucanos tentaram defender os seus anos no governo federal. Pelo que se viu, no entanto, não se prepararam para a tarefa, e PT novamente impôs o tom da narrativa sobre a era FHC.

Fernando Dantas

24 de outubro de 2014 | 18h26

Se as pesquisas dos dois institutos de mais tradição e considerados mais confiáveis – Datafolha e Ibope – estiverem corretas, há uma probabilidade muito alta que a presidente Dilma Rousseff se reeleja neste domingo. Existe, é claro, a possibilidade de que o tucano Aécio Neves tenha um desempenho tão excepcional no debate de hoje à noite na Rede Globo que reverta a vantagem que vem se abrindo para candidatura oficial nas pesquisas. Dilma, porém, auxiliada pelos seus competentes marqueteiros, deve jogar hoje na retranca, dificultando goleadas.

Confirmando-se a vitória da presidente (sempre é bom repisar que pode haver surpresas, ainda mais depois de registrados os grandes erros dos institutos de pesquisa no primeiro turno), o PSDB mais uma vez vai se dedicar a exumar o cadáver de nova derrota.

Nesta campanha, o principal partido de oposição pela primeira vez em muito tempo ensaiou uma defesa do seu legado no poder, com Aécio repetidas vezes referindo-se de forma elogiosa a Fernando Henrique Cardoso e defendendo as privatizações realizadas no governo do ex-presidente.

O movimento, porém, foi incompleto. No segundo turno, o PT voltou sua artilharia tradicional contra o candidato tucano, baseada na ideia de que o governo de Fernando Henrique – exceção feito à meritória estabilização – foi caracterizado por quebrar o País três vezes, rastejar ao FMI e promover juros altíssimos e desemprego, ao mesmo tempo em que nutria forte indiferença à questão social e aos pobres. Já os 12 anos petistas, em contraste, representaram um período de estabilidade, solidez, bom desempenho econômico, recorde de emprego e políticas sociais abundantes.

Mantega X Fraga

Diante dessa narrativa petista, o PSDB ficou, como de hábito, sem resposta. Os marqueteiros tucanos alegam que não querem cair na armadilha eleitoral de discutir o passado, mas o PSDB já foi derrotado três vezes com a narrativa petista sobre o seu passado. Os tucanos parecem ter aberto mão de ter uma narrativa própria sobre o que fizeram no poder federal durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

Foi, curiosamente, no debate entre Armínio Fraga e Guido Mantega que ficou claro que, apesar de terem pela primeira vez em várias eleições se decidido a defender o governo FHC, os tucanos provavelmente não refletiram muito sobre como fazê-lo. Diante da clássica comparação entre os indicadores econômicos – reservas, risco, inflação, juros – muito piores de 1995 a 2002 do que na era petista, levantados por Mantega, Fraga deu respostas técnicas e protocolares. A maior parte dos telespectadores saiu com a impressão de que o atual ministro da Fazenda venceu o debate com o economista apontado por Aécio para ser o seu titular desta pasta.

Embora naturalmente muito mais treinado no debate político, Aécio não se saiu muito melhor quando confrontado com o mesmo tipo de comparação. A razão é que simplesmente, diante da estratégia de “não discutir o passado”, o campo tucano mais uma vez não se preparou para este debate.

A narrativa que o PSDB teima em não reconstituir é relativamente simples, e nem tão impossível assim de transmitir ao eleitorado com menor grau de instrução (o que vai a seguir seria uma versão tucana da história, não necessariamente concordante em todos os seus aspectos com a visão do colunista).

Fernando Henrique iniciou de fato sua liderança do País quando assumiu o ministério da Fazenda com Itamar Franco e lançou o plano Real. É fácil pintar o caos brasileiro naquela época: hiperinflação, inadimplência externa, indicadores sociais terríveis, etc. O plano Real iniciou o processo de estabilização, mas os anos à frente foram muito difíceis, com diversas crises internacionais que tiveram epicentro nos emergentes (ao contrário de 2008 e 2009), num momento em que o Brasil ainda estava muito fragilizado. Duras e necessárias reformas foram aprovadas, quase sempre com oposição ferrenha do PT, solidificando a estabilidade que seria a plataforma para os avanços econômicos e sociais futuros.

Na área social, avançou-se de fato menos do que seria ideal, devido à mobilização do capital político na tarefa da estabilização e também ao simples fato de que os recursos eram muito menores. Mas o PSDB fez aumentos expressivos do salário mínimo nos momentos de calmaria entre as crises e lançou as bases, ainda que em escala bem menor, da futura política de transferência de renda condicionada da era petista (este ponto, aliás, foi dos poucos que foram trabalhados pelo marketing político tucano).

Valor da Petrobrás

Ao longo dos debates desta campanha, viu-se Aécio ficar sem resposta mesmo quando havia formas evidente de retrucar. A presidente Dilma, confrontada com a recente queda de valor da Petrobrás, argumentou que a empresa vale muitas vezes mais do que durante o governo Fernando Henrique. Ora, o produto da empresa, o petróleo, também vale muitas vezes mais do que na era tucana. Um feirante entenderia perfeitamente esse argumento. Diante do desfilar de números petistas – escolas técnicas, universidades, financiamento rural – que humilham os do governo FHC, Aécio poderia simplesmente mostrar a diferença entre o orçamento federal médio em termos reais no governo tucano e no de Dilma. Uma dona de casa entende que, quando os recursos crescem, mais pode ser feito.

E, quanto ao crescimento do país e dos recursos em si, parte é um processo natural de avanço, em que se espera que o futuro seja melhor que o presente e o presente melhor que o passado, e parte se deve à bonança das matérias-primas que bafejou o Brasil e outros países latino-americanos. Também não é difícil mostrar como diferentes países da região, com diferentes tipos de governo, avançaram junto com o Brasil desde o início da década passada.

Ter argumentos sólidos e bem pensados para defender sua passagem pelo governo não significaria, para os tucanos, prender a discussão ao passado. Pelo contrário, poderia ser a base consistente para trazer o debate ao presente, mostrando que o importante não é fazer comparações incongruentes do País em diferentes momentos do tempo, mas sim comparar o Brasil no início de um mandato presidencial e no seu fim, para ver quais foram as melhoras e as pioras.

Pela narrativa petista, exceção feita ao fim da hiperinflação, Fernando Henrique piorou o Brasil. Ao não se prepararem para esse debate, os candidatos do PSDB endossam implicitamente a visão do seu principal adversário. E a parte do eleitorado mais indecisa e sensível à propaganda eleitoral acaba concluindo que, se for para mudar para pior, é melhor ficar com o que já existe.

Mesmo que uma surpresa de última hora dê a vitória a Aécio no domingo, a sua campanha provavelmente teria sido melhor e mais efetiva se o candidato tivesse se preparado para discutir o que seu partido fez quando governou o País.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 24/10/14, sextafeira, pela AE-News/Broadcast.

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