Turquia: populismo versus mercado

O autoritário presidente Erdogan, que obrigou o banco central turco a baixar os juros na base de demitir quem fosse contra, vê a desvalorização da lira turca disparar e oferece hedge cambial para os poupadores do país. Por enquanto, a jogada segurou o câmbio, mas há riscos.

Fernando Dantas

22 de dezembro de 2021 | 12h39

A Turquia está hoje (21/12, quando a coluna foi publicada) nos holofotes como a bola de vez do roteiro clássico de “presidente populista em luta contra os mercados”. Aparentemente, o autoritário Recep Tayyip Erdogan fez um gol hoje, mas analistas temem que ele tome de volta mais uma goleada do mercado.

O câmbio da lira turca saiu de cerca de 7 por US$1 no início deste ano para um pico acima de 18 durante as negociações nessa segunda-feira. Hoje, no entanto, a moeda voltou para próximo de 13, depois que Erdogan anunciou, na noite de ontem, uma espécie de garantia cambial para os poupadores do país.

Segundo o economista Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG, pesquisador associado do Ibre-FGV e que vem trabalhando com um modelo de mensuração de diversos fatores que influenciam o câmbio, “há um pouquinho de contágio da Turquia nas moedas emergentes como um todo”. Isso inclui, claro, o real, cotado a R$ 5,74.

As razões estruturais da megadesvalorização da Turquia são as contas externas sempre em estado difícil, diferentemente do Brasil, em que o principal componente atual da fragilidade macroeconômica são as contas públicas.

Porém, no caso turco, tudo piora pelo fato de que Erdogan manda no Banco Central da República da Turquia, e não quer saber de juros altos, necessários tanto para conter a crescente inflação (projetada em 16,7% pelo FMI para este ano) quanto para atrair capitais externos.

O presidente, claro, quer uma política monetária que estimule a economia, para ajudar sua popularidade – que, contudo, vem sofrendo por causa da alta da inflação.

Em aproximadamente dois anos, Erdogan demitiu três presidentes do BC turco. A última substituição, em março deste ano, foi de Naci Agbal pelo titular atual, o banqueiro e político Sahap Kavcioglu. Desde setembro, a taxa básica da Turquia foi cortada de 19% para 14%.

Em setembro, ocorreu o primeiro corte, de 1 ponto porcentual (pp). Na reunião de outubro, o corte foi de 2pp, mas o detalhe significativo é que logo antes da decisão Erdogan demitiu três membros do “Copom” turco, vistos como contrários à redução de setembro.

Não é de espantar, portanto, que a última e mais extrema “pernada” de desvalorização da lira turca tenha começado justamente no final de outubro, depois da decisão do BC do país.

Hoje, entretanto, Erdogan acionou uma “arma secreta” para tentar segurar o câmbio.

Trata-se de uma espécie de poupança que o presidente anunciou na segunda-feira à noite para ser oferecida como produto financeiro aos turcos. O aspecto crucial é que o governo prometeu compensar os detentores dessa poupança – só podem ser pessoas, não empresas, e o dinheiro tem que ficar parado três meses – caso a desvalorização do dinheiro lá depositado ultrapasse os juros pagos pelos bancos.

O esquema parece um hedge cambial oferecido pelo governo aos cidadãos, mas alguns analistas viram nele algo como um aumento dos juros disfarçado.

Também se notou que o mecanismo funcionaria melhor se não precisasse ser usado: isto é, essa simples possibilidade de compensação seria suficiente para interromper a fuga de capitais temerosos de mais desvalorização. E, não havendo desvalorização acima dos juros da poupança, o mecanismo não seria usado.

Por outro lado, se a garantia tiver que ser usada, tudo indica que será às custas do Tesouro turco. E aí surgem tanto problemas fiscais como de “dano moral”, já que recursos de impostos extraídos da população como um todo, inclusive pobres, serão usados para evitar perdas de poupadores, incluindo (e sobretudo) ricos.

A Turquia, em termos da média dos emergentes, é vista como relativamente bem em termos fiscais, com uma dívida bruta de 37,8% do PIB segundo o FMI, comparado a 90,5% do Brasil (no critério do Fundo).

Porém, como o Brasil bem sabe, garantia cambial por parte do governo pode muito bem se tornar gasto na veia. Aproximadamente 60% da dívida pública turca é em moeda estrangeira, e a nova poupança potencialmente pode jogar ainda mais risco cambial nas costas do Tesouro do país.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/12/2021, terça-feira.