Ucrânia alimenta volatilidade

Fernando Dantas

06 de agosto de 2014 | 18h30

Enquanto o mundo tem sua atenção capturada pela trágica guerra em Gaza, que finalmente parece ter evoluído para uma trégua, os operadores do mercado financeiro não desgrudam os olhos da evolução dos acontecimentos na Ucrânia. Em termos geopolíticos, o conflito no Leste Europeu tem um potencial desestabilizador maior, por colocar em rota de colisão, como nos tempos da Guerra Fria, os principais países ocidentais, de um lado, e a Rússia, de outro.

Segundo um conhecido gestor de recursos, as recentes altas do dólar e dos juros futuros no Brasil fazem parte de um movimento global que tem como um dos principais ingredientes o curso dos acontecimentos na Ucrânia. Hoje, os temores de uma deterioração no Leste europeu ganharam novo impulso, com declarações do primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, de que o risco de uma invasão russa da Ucrânia cresceu nos últimos dias. Já a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) alertou que o número de soldados russos na fronteira com a Ucrânia subiu para 20 mil.

A derrubada sobre o espaço aéreo ucraniano do voo 17 da Malaysia Airlines de Amsterdã para Kuala Lampur em 17 de julho, atribuída a rebeldes pró-Rússia, foi o estopim da nova rodada de tensões. Os Estados Unidos não só impuseram sanções mais duras à Rússia como induziram seus parceiros europeus a fazer o mesmo, levando os russos a ameaçarem retaliação.

Ontem, por exemplo, um jornal de negócios russo reportou que o país cogita restringir ou proibir os voos de empresas europeias pelo espaço aéreo siberiano, em rotas para a Ásia. O movimento seria para retaliar a União Europeia (UE) pela sanção que levou ao cancelamento do contrato de leasing da Dobrolyot, uma linha aérea de baixo custo operada pela Aeroflot, o que fez com que a empresa cancelasse todos os voos. De concreto, há o fato de que o primeiro-ministro russo, Dmitry Medvedev, disse que a Rússia deveria pensar em retaliações no caso da Dobrolyot, que foi punida pela UE por causa de voos para Crimeia, que foi anexada pela Rússia da Ucrânia em março.

Existe ainda a perene ameaça de suspensão das exportações russas de gás natural para países da UE. Nas suas declarações de hoje, Tusk, da Polônia, disse que a suspensão atingiria a Rússia em primeiro lugar, e que tanto o país quanto a UE querem manter este tema fora do imbroglio de sanções e contra-sanções. Mas sempre é um risco a ser considerado. O maior perigo, entretanto, seria uma invasão russa do Leste da Ucrânia, com impacto geopolítico incalculável.

De qualquer forma, as tensões do Leste Europeu estão se irradiando pelo mundo, e claramente são parte da explicação para as recentes tensões do mercado. Assim como o real, o peso mexicano também se desvalorizou, e os juros de médio e longo prazo subiram particularmente em países do Leste europeu, como Hungria e Polônia, e na Turquia.

Em termos de fluxo de capitais, eventos geopolíticos desse tipo provocam o chamado “flight to quality” (fuga para a qualidade), quando os investidores buscam segurança nos ativos menos arriscado. Assim, recentemente houve queda não apenas da rentabilidade dos títulos do Tesouro americano de dez anos mas também dos papéis equivalentes da Alemanha, que se aproximaram de 1,10%.

Há inclusive alguns efeitos secundários curiosos das tensões na Ucrânia, como a transferência de recursos russos de bancos europeus para asiáticos (pelo temor das sanções), o que talvez explique as compras pesadas recentes de ativos da autoridade monetária de Hong Kong; e a valorização de empresas de gás e petróleo por fluxos que saem do setor na Rússia para outros países (o que pode até ter beneficiado a Petrobrás na primeira rodada de sanções).

De qualquer forma, a piora na Ucrânia pegou os investidores globais em um momento de particular apetite por risco e posições avantajadas, o que acirra qualquer correção. No Brasil, isso se soma à aposta na queda dos juros puxada por indicadores de atividade crescentemente desanimadores.

Como a situação na Ucrânia é extremamente incerta, com períodos relativamente mais calmos sucedendo-se a momentos mais tensos, e vice-versa, e difícil computar qualquer tendência definitiva associada aos eventos no Leste europeu. O mais provável é que permaneça como fator a adicionar alguma volatilidade num mundo ainda bastante faminto por risco.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/8/14, quarta-feira.

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