Um ajuste que fracassou ou que ainda não acabou?

Brasil se enfraqueceu com políticas equivocadas do primeiro mandato de Dilma e foi atingido de forma muito mais brutal pelo fim do ciclo das commodities do que outros países que também sofreram. Assim, mais do que deixar o governo por causa de um ajuste fracassado, Levy sai porque o ajuste está sendo mais profundo e demorado do que se previa.

Fernando Dantas

18 de dezembro de 2015 | 20h48

Com a esperada saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, do governo (confirmada à noite de 18/12/15, sexta-feira, com a nomeação de Nelson Barbosa para o cargo), crescem as apreensões sobre uma nova mudança na política econômica da presidente Dilma Rousseff. No primeiro mandato, na esteira da euforia com os anos de boom da era Lula – interrompidos apenas muito rapidamente pela crise global –, a presidente sentiu-se segura para pôr em prática as suas convicções ideológicas.

Como economista heterodoxa e personalidade política de esquerda, ela avalizou o experimento econômico da nova matriz, que acabou intensificando enormemente os efeitos sobre o Brasil no fim do megaciclo das commodities. O choque de oferta sofrido pelo Brasil, com os efeitos simultâneos de desaceleração econômica e alta da inflação, foi sentido por vários outros países latino-americanos ou produtores de commodities. O desastrado experimentalismo do primeiro mandato da presidente, entretanto, magnificou os impactos do choque externo, e o estrago econômico acabou sendo muito mais devastador do que o de países como Chile, Peru e Colômbia.

Esse cenário negativo já estava claro para a presidente logo após a sua reeleição, no final de 2014, o que a levou atitude extrema de chamar Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Era evidente que colocar no comando da economia um tecnocrata que simbolizava como ninguém a agenda ortodoxa e liberal, demonizada durante a campanha pela própria candidatura de Dilma, representaria um enorme golpe na imagem política da presidente.

Dilma assumiu estoicamente as consequências politicamente negativas da sua escolha – com o agravante adicional de irem contra suas próprias convicções ideológicas –, e viu sua popularidade se desintegrar até os níveis mais baixos da história desde a redemocratização. A presidente pôde testemunhar também o quão poderosas são as interações entre a deterioração na esfera política e na econômica. Apesar do esforço titânico de Levy para comandar um ajuste fiscal que resgatasse a confiança e relançasse a economia, o PIB entrou em queda livre, produzindo o que talvez venha a ser a pior recessão brasileira desde a Grande Depressão, com o agravante de a inflação voltar aos dois dígitos.

Muito se discutirá ainda sobre até que ponto a própria Dilma impediu que o ajuste de Levy fosse bem sucedido, ao não lhe dar todo o apoio que o ministro requeria e ao colocar no Planejamento Nelson Barbosa, que tem uma visão mais gradualista do que a da Fazenda. Na visão do mercado financeiro, o fracasso do ajuste até agora é explicado pelo fato de que Levy não conseguiu implementar tudo o que pretendia.

Esse é o tipo de narrativa contrafactual que se beneficia do fato de que a história só acontece uma vez, e não é possível saber como seria caso este ou aquele fator fosse diferente. Na verdade, apesar de suas indiscutíveis diferenças, os dois ministros conduziram uma correção severíssima da economia brasileira, quando se leva em consideração o corte de quase 40% dos investimentos federais, as reduções pelo Congresso de benefícios, a reversão das desonerações, a desmontagem da política parafiscal expansionista e a elevação dos juros, entre outras medidas.

Uma versão alternativa para explicar o “fracasso” do ajuste é que na verdade não se trata de um fracasso, e sim de um ajuste que ainda está em curso. Com a fragilização da economia brasileira pela nova matriz, os efeitos do choque de oferta foram potencializados de tal forma que, um ano após o início da correção, a sensação é de que o país ainda está caindo no abismo.

Mas há alguns sinais de que a terapia está funcionando, como a forte virada nas contas externas. A inflação ainda será muito elevada em 2016, mas a ideia de que se voltou a um padrão de descontrole inflacionário como o da década de 80 é, por enquanto, apenas uma hipótese – e o Banco Central, com todos os problemas que enfrenta hoje, fará de tudo para provar que se trata de hipótese errada.

O desastre fiscal, por sua vez, e é em grande parte ligado à queda das receitas na esteira do tombo da economia. Mesmo que as receitas não voltem a crescer acima do PIB como nos anos dourados do governo Lula, a eventual estabilização da economia, seguida de algum crescimento, mesmo que bastante baixo, dará outra feição à política fiscal e pode tornar menos apavorante à perspectiva da relação dívida/PIB.

Com a aguardada saída de Levy, é razoável supor que o ajuste da economia e a agenda de inadiáveis reformas estruturais ganhem abordagem mais gradualista, seja qual for o escolhido para substituí-lo na Fazenda. Será irônico se o atual ministro, com sua mão de ferro e sua obstinação em realizar a correção mais drástica possível no menor tempo possível, tenha semeado o terreno para que um sucessor mais flexível venha a colher os frutos mais adiante, quando o ajuste tiver afinal derrotado os efeitos adversos do choque de oferta. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/12/15, sexta-feira.