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Um bom Caged, porém…

Números de junho do trabalho formal medido pelo Caged surpreenderam positivamente os analistas. É uma boa notícia, mas há vários complicadores e ressalvas a serem levados em consideração.

Fernando Dantas

29 de julho de 2020 | 11h07

O resultado do Caged de junho foi indiscutivelmente bom. A perda de 10.948 empregos com carteira assinada no mês passado foi bem melhor do que a mediana das estimativas do Projeções Broadcast (-195.193) e do que o piso das previsões (-118 mil).

Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank, observa que as admissões em junho (895.460) vieram um pouco acima da sua projeção, e as demissões (906.444) foram bem menores do que o esperado – neste segundo caso, surpreendendo a grande maioria dos analistas.

Embora a maior surpresa para o mercado tenha sido o número de demissões, Serrano aponta que as admissões, em particular, reforçam a sua estimativa de queda do PIB no ano de 5,2%, que está na ponta mais otimista do mercado.

Combinado a outros indicadores positivos recentes (índices de confiança, varejo), o Caged de junho compõe um quadro que pode até, segundo Serrano, indicar uma queda do PIB este ano entre 4,5% e 5%.

Mas existem muitos “poréns”, como aponta o economista do Haitong e outros analistas do mercado de trabalho.

O primeiro, relatado por Serrano, é a incrível incerteza econômica trazida pela pandemia, que faz com que, no curtíssimo prazo, os indicadores tenham variações fortíssimas, dificultando que se enxerguem as tendências de médio e longo prazo.

Uma segunda questão é o papel dos programas de manutenção do emprego do governo na surpresa positiva em termos de demissões (que já havia ocorrido em maio).

Segundo o site do governo do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda – de suspensão e redução de jornada de trabalho, com reposição parcial pelo seguro-desemprego –, 15 milhões de acordos de preservação de postos de trabalho já foram celebrados.

É um número muito alto, considerando que a quantidade de empregos com carteira assinada no País, pelo Caged, é de pouco menos de 40 milhões, nota Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação.

O economista Daniel Duque, especialista em mercado de trabalho do Ibre/FGV, também aponta os programas de manutenção do emprego como uma possível causa da surpresa em termos de demissões em maio e junho.

Duque ressalva, no entanto, que esse efeito é uma suposição, pois não dá para saber se as empresas que aderiram ao programa de suspensão e redução de jornada de trabalho (o principal lançado pelo governo com o objetivo de preservar empregos) de fato demitiriam caso não tivessem entrado.

De qualquer forma, os dois pesquisadores se preocupam com o momento, lá para os meses finais do ano, em que os efeitos dos programas sobre o mercado de trabalho se extinguirão. As empresas podem entrar no programa de suspensão e  redução por alguns poucos meses, e, ao fim, têm que preservar os empregos em questão por um período equivalente. Depois disso, podem demitir.

Na verdade, o governo brasileiro turbinou a economia este ano com programas relacionados à Covid-19, sendo que o mais monumental, em termos macroeconômicos, é o auxílio-emergencial, cujo custo mensal se aproxima de 15 vezes o do Bolsa-Família.

Uma das grandes questões, como também coloca Serrano, do Haitong, é o que vai acontecer com a economia quando esses programas saírem de cena.

“Como será que a economia vai se comportar sem as muletas que o governo colocou?”, ele pergunta.

Em tese, o governo poderia renovar os programas para além do que já está contratado, mas, como aponta Ottoni, da IDados, “a situação fiscal está complicada de verdade”, isto é, insistir nos programas indefinidamente pode ser um grande tiro no pé.

Outra possível dúvida em relação ao Caged, mencionada por Duque, do Ibre, é se o nível de demissões surpreendentemente baixo em maio e junho não estaria ligado ao fato de que empresas (sobretudo pequenas, responsáveis pela maior massa de empregos), simplesmente fecharam as portas durante a pandemia e nem reportaram desligamentos.

Duque observa que, enquanto a Pnad Contínua indica que foram perdidos 3,4 milhões de empregos formais entre fevereiro e maio (último mês divulgado da pesquisa), o Caged aponta perda de março a junho de pouco menos de 1,5 milhão.

Por questões metodológicas e sazonais, é comum haver diferenças substanciais entre os dados do emprego formal, do Caged e da Pnad C. No entanto, a divergência de quase 2 milhões de postos em períodos parecidos parece grande demais, segundo Duque, o que poderia indicar uma eventual subnotificação no Caged.

O economista do Ibre acrescenta que é possível que os números do mercado de trabalho estejam “parecendo melhores que a realidade agora, e venham a parecer piores do que a realidade na recuperação nos próximos meses”.

No caso do Caged, por exemplo, isso ocorrerá se for verdadeira a hipótese de que empresas que fecharam as portas durante a pandemia não estão reportando desligamentos – é possível que a parcela delas que voltará a reabrir venha a reportá-los após o retorno à ativa.

Já no caso da Pnad Contínua, quando a economia voltar com mais ânimo muitas pessoas podem voltar a procurar emprego, entrando ou reentrando na população economicamente ativa (PEA). Isso pode fazer com que o emprego cresça junto com a taxa de desemprego (que tem a PEA no denominador).

Porém, como os três analistas apontaram, pode haver também pioras à frente que não serão apenas aparentes. Há a questão do fim dos programas, e a decisão dos patrões de manter ou não empregos mais para o fim do ano vai depender quase só do nível de atividade – a economia brasileira, diga-se de passagem, já vinha rateando nesse quesito por um longo período, mesmo antes da pandemia.

“Eu não vejo uma recuperação em V, e por enquanto acho um exagero pensar nisso”, diz Ottoni.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/7/20, terça-feira.

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