Um conto de dois discursos

O governo se vê às voltas com a tarefa praticamente impossível de dar coerência a dois discursos irreconciliáveis: o da prioridade ao ajuste, ao qual as circunstâncias de curto prazo têm que se adaptar; e o ajuste condicionado a não piorar as circunstâncias, mesmo a curto prazo. Em Davos, o inevitável curto-circuito aflorou.

Fernando Dantas

04 Fevereiro 2015 | 19h04

Na sua incursão ao Fórum Econômico Mundial de Davos, o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fez algumas entrevistas à imprensa – com prioridade a órgãos prestigiosos na cena internacional. Uma parte considerável delas foi seguida de notas de esclarecimento do ministério da Fazenda, corrigindo o que teriam sido – na visão do governo – erros de interpretação dos entrevistadores.

Não é muito provável que Levy e seus assessores tenham detectado essas alegadas imprecisões no momento em que leram as reportagens publicadas por órgãos respeitados como, por exemplo, o Financial Times. O problema é que trechos específicos das entrevistas foram pinçados pela imprensa nacional, e ganharam grande destaque em jornais e ‘sites’ brasileiros.

Um exemplo foram as declarações de Levy ao FT sobre o seguro-desemprego. Independentemente das palavras específicas utilizadas pelo ministro para se referir ao arcabouço institucional do benefício no Brasil – a contestação da Fazenda foi justamente sobre isso –, a mensagem geral do jornal britânico parece correta. Levy e a equipe econômica (neste caso particular, tanto a atual como a anterior) consideram que o seguro-desemprego tem problemas em seu desenho, e foi exatamente por isto que uma Medida Provisória foi editada para alterá-lo (e também a outros benefícios).

Na imprensa nacional, porém, a mensagem que ficou é a de que o ministro de alguma forma é crítico ao seguro-desemprego. Existe uma enorme ambiguidade a ser explorada no espaço entre propor mudanças de algum programa (que evidentemente, na quadra atual, são no sentido restritivo) e ser percebido como hostil ao programa em si. É evidente que, com as lições de Davos (e a principal é que não existe mais informação compartimentalizada – quando se fala com o FT também potencialmente se fala com o trabalhador brasileiro), Levy medirá com cuidado redobrado cada palavra à imprensa.

Mas esses incidentes do Fórum Mundial apontam também para uma questão maior, que é o caráter cada vez mais político do imenso desafio econômico da nova equipe econômica. Na verdade, o governo da presidente Dilma Rousseff luta para dar uma aparente coerência a dois discursos que são não somente distintos como praticamente opostos em certos aspectos.

No plano externo, para os investidores internacionais, a mensagem é de austeridade e de que a prioridade é o ajuste da economia. Em outras palavras, as outras circunstâncias terão que se adaptar àquele objetivo maior – assim, a economia será reequilibrada independentemente dos custos de curto prazo em termos de desaceleração e inflação corretiva. Levy fez grande sucesso em Davos com esse discurso, mesmo que a parte dos custos tenha sido comunicada de forma mais implícita do que explícita.

Internamente, porém, na comunicação com trabalhadores, movimentos sociais e as bases do PT, a equação se inverte. Um ajuste é necessário, sim, e será realizado. Mas a sua intensidade está condicionada à manutenção do emprego e da renda da população, mesmo no curto prazo.

Com dois discursos fundamentalmente irreconciliáveis, não é de espantar que o governo da presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato já tenha dado tantos tropeços de comunicação.

O grande problema, porém, é que provavelmente esse problema de comunicação se transformará em um problema político muito mais profundo dentro de alguns meses. Por enquanto, a imprensa nacional dá destaque ao que Levy disse ao público internacional, e que diversos grupos da sociedade brasileira, especialmente aquele ligados à base eleitoral do PT, não gostam de ouvir. Porém, quando o ajuste atingir o emprego e a renda, o incômodo não será mais apenas com eventuais palavras do ministro (ou com a distorção das suas palavras), mas sim com os efeitos concretos no bem estar de curto prazo da sociedade. E, neste momento, de nada adiantarão a notas de esclarecimento do Ministério da Fazenda.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 3/2/2015, terça-feira.