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Um mundo que ajuda

José Júlio Senna, do Centro de Estudos Monetário do Ibre/FGV, explica por que o cenário internacional positivo para o Brasil pode perdurar.

Fernando Dantas

05 Setembro 2017 | 17h10

Faz parte de quase qualquer análise da conjuntura econômica brasileira atual os bons ventos internacionais que estão permitindo ao País tocar com a barriga o grave e não resolvido problema fiscal. Uma questão importante, portanto, é conhecer a consistência desse cenário externo positivo, e as chances de que seja duradouro.

Evidentemente, previsões econômicas são sempre vulneráveis à ocorrência de choques imprevistos, e devem ser tomadas com um grão de sal. Ainda assim, de acordo com detalhada análise dos principais condicionantes da conjuntura internacional que vem sendo realizada por José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, há motivos para crer que são boas as chances de a bonança internacional permanecer sustentando os ativos do Brasil e de outros emergentes por um bom tempo.

A economia mundial está se recuperando, especialmente nos países avançados, em que o crescimento é mais sincronizado, com baixo desvio padrão das taxas de expansão dos participantes da zona do euro e das nações ricas em geral.

Parece afastado o risco, que provocou temor na virada de 2016 para 2017, de que o governo Trump desse “certo demais”, isto é, que levasse a um crescimento mais forte e inflacionário nos Estados Unidos. Com isso, o dólar está enfraquecido, o que impulsiona as commodities e favorece emergentes exportadores de matérias-primas, como o Brasil.

Na maior parte do mundo rico, o desemprego está em queda sem provocar pressões inflacionárias, o que, independentemente de ser certo enigma mesmo para as principais autoridades monetárias, é indiscutivelmente positivo para emergentes com o perfil do Brasil.

Senna nota que algum paralelo – cuidadoso – pode ser traçado entre a situação atual nos Estados Unidos e o início dos anos 60, especialmente a fase de 1962 a 1964, em que prevaleceu um “keynesianismo na prática”, com incentivos a investimentos privados, redução permanente de impostos sobre pessoas e empresas e atingimento de pleno emprego no sentido econômico em meados daquela década (4% de desemprego, na época). O notável aqui é que a inflação não subiu.

No governo Johnson, que se seguiu ao de Kennedy, a política de estímulos foi intensificada, com os gastos da guerra do Vietnã e o programa “Great Society”. A partir daí, numa história de muitos episódios, mas durante a qual o Fed, BC americano, de forma geral sancionou – em vez de agir na contracorrente – o expansionismo fiscal, acabou-se desaguando num ambiente mais inflacionário, em que inclusive surgiram expectativas inflacionárias significativas e disseminadas.

A indagação que surge, segundo Senna, e cuja resposta pode ser muito importante para projetar os anos à frente, é se o mundo rico de certa forma teria voltado à fase pré-segunda metade da década de 60, em que as expectativas de inflação não eram incorporadas aos juros nominais, porque a inflação não era percebida como fenômeno permanente.

Há sintomas de que algo desse tipo possa estar ocorrendo, como os “term premiums” (prêmios pelo prazo) de títulos longos prefixados, que estão próximo de zero ou negativos.

“Na verdade, isso mostra que o investidor para garantir um bom retorno está se protegendo contra a deflação, e não contra a inflação”, nota Senna.

Por sinal, o padrão e o nível de oscilação dos “term premiums” dos títulos do Tesouro americano de dez anos nos últimos anos lembra o ocorrido na primeira metade da década de 60 (hoje, na verdade, até estão mergulhando mais em território negativo).

Na seara das decisões das principais autoridades monetárias do mundo rico, o que se vê ainda são taxas básicas baixíssimas ou próximas de zero, e apenas os Estados Unidos com perspectiva mais próxima de iniciar, e ainda assim de forma muito cautelosa e ponderada, a reversão dos programas de afrouxamento quantitativo.

Tudo somado, o Brasil e outros emergentes estão diante de um ambiente internacional líquido e benigno que pode ter raízes relativamente consistentes e ligadas a fatores fundamentais. Isto não significa, é óbvio, que se deva contar com a bonança para adiar indefinidamente reformas essenciais. O fato de que o tempo bom pode durar não muda a racionalidade de se fazer o conserto do telhado antes da próxima temporada. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/9/17, segunda-feira.