Um ótimo IPCA-15

Índice de inflação divulgado hoje traz várias boas notícias para o Banco Central. Mas também aumenta a cobrança de mais velocidade no corte da Selic.

Fernando Dantas

21 Dezembro 2016 | 20h33

O IPCA-15 de dezembro, de 0,19%, divulgado hoje, foi uma boa notícia para o Banco Central em múltiplos sentidos. Em primeiro lugar, ele torna bastante provável que, numa grande surpresa positiva em relação às expectativas de alguns meses atrás, o IPCA encerre o ano sem superar o limite de tolerância do sistema de metas, de 6,5%. Uma instituição ouvida pela coluna esta manhã, por exemplo, projeta 6,3%.

Do ponto de vista simbólico, é muito importante para Ilan Goldfajn, presidente do BC desde junho, e sua equipe que, como coroação do trabalho de restauração da credibilidade do sistema de metas, sejam poupados de escrever a carta aberta ao Ministério da Fazenda justificando o rompimento do teto. É claro que, num espaço de tempo tão curto desde a sua posse, a sorte certamente terá contribuído, junto ao bom trabalho, caso aquele objetivo venha a ser concretizado. Mas sorte faz parte do jogo.

Por outro lado, talvez ainda mais importante seja o fato de que a divulgação de ontem registrou uma paulada para baixo num núcleo da inflação de serviços que se tornou uma espécie de vedete do mercado desde que foi destacado pelo próprio BC no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro.

Trata-se do núcleo que exclui da inflação de serviços do IPCA itens como serviços domésticos, turismo, comunicação e cursos. A média móvel trimestral, dessazonalizada e anualizada, desse núcleo comportou-se mal durante o período que vai de maio, quando estava em 6,8%, até novembro, quando – após oscilações – se encontrava em 6,9%.

No IPCA-15 de dezembro, no entanto, o núcleo deu um show. A leitura mensal, dessazonalizada e anualizada, foi de apenas 3%. A média móvel trimestral, idem e ibidem, caiu de 6,5% no IPCA-15 de novembro para 6% no de dezembro. No acumulado em 12 meses do índice, saiu-se de 6,87% para 6,47% entre estes dois últimos IPCA-15.

Na corrente mais otimista do mercado com a inflação, que cobra do BC uma ação mais enérgica de redução de juros, e pede corte de 0,75 ponto porcentual da Selic na reunião de janeiro, a impressão é de que a política monetária deveria ter uma abordagem mais holística dos núcleos, e não ficar apenas obcecada com o núcleo de serviços mencionado acima (e que, ele mesmo, caiu forte agora).

A média móvel de três meses, anualizada, de três núcleos clássicos – média aparadas com suavização, dupla ponderação (que reduz o peso dos índices mais voláteis) e exclusão (de itens como gasolina e alimentos) – está bem abaixo da meta de 4,5%. Paralelamente, há muitos meses o mercado vem errando sistematicamente para cima as projeções do IPCA e do IPCA-15.

A ideia dessa corrente do mercado é de que agora a recessão brutal e o desemprego estão atingindo em cheio a inflação, e não só há espaço, mas urgência, de que o BC corte os juros rapidamente. Caso se atrase, o juro real subirá a níveis perigosos num quadro de muitas empresas com excesso de endividamento e dificuldades financeiras.

Evidentemente, o mercado é composto por correntes com visão diferentes, às vezes opostas, e o Banco Central fico no meio, como árbitro. De qualquer forma, diante de uma conjuntura plena de má notícias, como a rendição de Brasília ao Estados na renegociação da dívida estadual, parece um refresco que haja gente competente e insuspeita de demagogia populista cobrando do BC que tire o pé do freio. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/12/16, quarta-feira.