Um PIB emblemático do momento

Decepção do crescimento da economia no segundo trimestre dá o tom da conjuntura atual, em que inflação e juros em alta e as crises energética e política reforçam o pessimismo.

Fernando Dantas

02 de setembro de 2021 | 18h38

O PIB decepcionante do segundo trimestre é  emblemático deste momento em que revisões para baixo estão sendo feitas em relação ao crescimento da economia brasileira neste ano e em 2022.

Porém, como apontam alguns analistas, o PIB do 2º tri, apesar de vir abaixo das expectativas, não exatamente trouxe grandes novidades que alterassem drasticamente os prognósticos.

Na verdade, o resultado é um elemento a mais num quadro pessimista no qual pesam a alta da inflação e dos juros, problemas de oferta na cadeia industrial e as crises hídrica e política. Além, é claro, do temor de uma terceira onda da pandemia, provocada pela variante delta.

Carlos Kawall, diretor do Asa Investiments, nota que, invertendo o ocorrido no primeiro trimestre, no 2º tri a demanda doméstica cresceu significativamente mais que o PIB, o que significa contração de estoques.

Segundo Kawall, para um PIB (oferta) de 1,2% no 1º tri, a demanda cresceu 0,2%. Já no segundo tri, o resultado do PIB foi de -0,1%, mas a demanda se expandiu em 1,7%.

Uma das possíveis explicações para o ocorrido no segundo trimestre são problemas logísticos na cadeia industrial, como os relatados em relação a microchips e automóveis, travando a produção.

Em particular, em relação aos seus prognósticos, uma surpresa negativa em relação aos serviços e uma positiva em relação à agropecuária aproximadamente se anularam. Isso faz com que sua surpresa negativa com a indústria, em especial a de transformação, seja boa parte da explicação para a projeção de alta de 0,3% no PIB no 2º tri, ante o resultado efetivo de -0,1%.

Olhando para a frente, Kawall considera que vale a pena atentar mais para possíveis efeitos dos problemas de oferta na indústria na atividade em geral.

Já um gestor baseado no Rio foi mais surpreendido pelos números um pouco piores que os de suas projeções em componentes de serviços afetados particularmente pela pandemia, como outros serviços e serviços de administração pública.

Nesses dois subsetores estão os serviços mais afetados pelas restrições de mobilidade causadas pela pandemia, como refeições fora de casa, hospedagem, lazer, serviços pessoais como salões de beleza, academias etc., além de saúde e educação, tanto públicas quanto privadas.

Mas o gestor não considera que essa decepção no segundo trimestre mude muito o quadro da economia brasileira.

Segundo o analista, esses segmentos de serviços, que ainda estão bem abaixo dos níveis pré-pandemia, estão se reabrindo com o recrudescimento da pandemia e o avanço da vacinação, e a reabertura deve prosseguir.

Assim, ele raciocina, “se essa retomada ainda não foi incorporada no PIB do segundo trimestre, isso deve ocorrer, talvez até de forma mais forte, no PIB do terceiro tri”.

Mas esse fato, para ele, não muda o pessimismo com a atividade derivado da alta de juros – cujo efeito é defasado – e da crise hídrica, com efeitos no custo industrial, e da crise política, que inibe investimentos.

Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, também não viu no PIB do segundo trimestre elementos tão surpreendentes a ponto de mudar sua visão qualitativa da conjuntura econômica brasileira.

Em termos mais gerais, a diferença de 0,3 pp entre sua projeção para o PIB do segundo tri e o resultado oficial derivou de calibrações um pouco melhores para indústria e serviços, mas nada de grande significação, além uma superestimativa dos impostos (que também entram no PIB).

Ela projeta desaceleração no segundo trimestre de indústria e comércio, com quedas em julho nas pesquisas específicas desses segmentos.

Tanto a indústria quanto o varejo, aponta Luana, estão significativamente acima do nível pré-pandemia, e é esperado um desvio do consumo relacionado a esses segmentos para os serviços mais afetados pela mobilidade, mencionados acima. O risco a esse processo, ela ressalta, seria uma terceira onda de Covid.

Em termos de projeções para o PIB, Kawall está indo para 5/5,1% para 2021 e tem 2%, com viés de baixa, para 2022. O gestor citado acima projeta, respectivamente, 5,2% e 1,2% para este ano e o próximo. E Luana está indo de 5,5% para 5,2/5,3% em 2021, e tem 1,7% para 2022.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/9/2021, quarta-feira.