Um sonho frustrado

Mercados brasileiros estão sendo afetados mais por um cenário róseo que não se concretizou do que por pioras concretas.

Fernando Dantas

06 Abril 2018 | 17h52

A piora do mercado doméstico nos últimos dias, com a perspectiva de que o STF mude o entendimento sobre a prisão de segunda instância e livre Lula da cadeia, pode ser colocada num contexto mais amplo: mais do que por fatos concretamente negativos que estejam acontecendo, os ativos brasileiros sofrem por um sonhado cenário positivo que parece ter ficado bem mais distante.

(esta coluna foi escrita antes da decisão surpreendente da juíza Rosa Weber, do Supremo, que levou a maioria da corte a votar contra o habeas corpus ao ex-presidente)

Em janeiro, quando o TRF-4 condenou Lula por unanimidade em segunda instância, uma feliz (para o mercado) conjunção astral parecia estar se cristalizando.

Os mercados internacionais continuavam em alta, impulsionados pela recuperação sincronizada dos principais centros da economia global. Apesar disso, não se via (e, de fato, ainda não se vê) sinais de inflação, e a perspectiva era de um ajuste muito gradual e ordeiro dos juros norte-americanos.

No Brasil, a fase era de viés positivo para as projeções de crescimento em 2018, acompanhadas (como agora) por seguidas surpresas baixistas no Focus. Como nota Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, as projeções do Focus caminhavam na direção de 3% de crescimento este ano, “mas uma turma mais animada já pensava em números mais altos, até próximos de 4%”.

Naturalmente, a perspectiva de uma elevação do PIB mais vistosa em 2018 augurava bem para as candidaturas centristas na eleição presidencial. Quem sabe o desemprego recuava mais um pouquinho até o final do ano, comparado com as previsões? E uma retomada mais forte seria uma espécie de atestado de qualidade para a política econômica liberal do atual governo.

Na área política propriamente dita, finalmente, a unanimidade do TRF-4 contra Lula parecia não só tirar o ex-presidente do páreo eleitoral, mas também reduzir o seu cacife como cabo eleitoral de candidaturas de esquerda, inclusive pela perspectiva de prisão.

O mais importante é que todos os fatores mencionados acima se combinavam e se fortaleciam, criando um cenário prospectivo em que uma economia em franca recuperação ajudaria a eleger um candidato com plataforma centrista e liberal, que daria continuidade à atual política econômica e colocaria o Brasil em rota de crescimento sustentado.

Nem é preciso dizer que, a partir de fevereiro, houve decepções em todos os fronts. Os mercados externos ficaram bem mais voláteis, com fortes quedas, sugerindo inclusive a possibilidade de que se esteja transitando para uma nova fase depois de anos de alta. A guerra comercial (por enquanto mais verbal do que prática) entre Trump e a China e o cerco às empresas de tecnologia como Facebook e Amazon – que afetou os preços do segmento mais relevante para o “rally” dos últimos anos – azedaram o bom humor internacional.

No front da inflação e dos juros americanos, não há de fato, por enquanto, nenhuma razão para alarme, mas as projeções da taxa básica pelos dirigentes do Fed se movimentaram ligeiramente para cima recentemente.

No Brasil, a partir da divulgação decepcionante do crescimento de 0,1% do PIB no quarto trimestre de 2017, uma série de dados de atividade de alta frequência veio mais fraca do que o esperado, jogando água no chope dos mais otimistas. “Essa turma agora anda cabisbaixa”, nota Rocha, do JGP.

O viés das projeções agora parece ser de baixa, recuando de volta para 2,5%, quem sabe menos. Em relação ao primeiro trimestre, a ideia de que o PIB poderia crescer 1% ficou para trás, e agora se trabalha mais com algo mais próximo de 0,5%. O que exigiria uma aceleração muito forte a partir do segundo trimestre para que o ano fechasse em 3%.

Finalmente, Lula, que se mantém muito forte nas pesquisas eleitorais, como líder disparado, mesmo que não concorra – como parece ser o consenso entre os especialistas – pode, em liberdade, ser um poderoso cabo eleitoral. Fora a possibilidade das peripécias, enervantes para o mercado, em que o ex-presidente tente registrar a candidatura, entre com liminar no Supremo caso o TSE se recuse a aceitar, e por aí vai.

Combinando-se os fatores, essa leva mais recente de notícias preocupantes para o mercado não chega ainda a configurar um círculo vicioso, mas com certeza já desmontou o círculo virtuoso que se prefigurara em janeiro. Há uma espessa nuvem de incerteza interna e externa pairando sobre os mercados brasileiros. O que era doce acabou-se, pelo menos por enquanto. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/4/18, quarta-feira.