Uma ata com muitas novidades

Ata da reunião de janeiro do Copom mostra que alguns membros do colegiado já queriam discutir aumento da Selic para o primeiro mês do ano. O documento mudo percepção do mercado, que agora vê início do ciclo de alto começando mais cedo, em maio ou até em março.

Fernando Dantas

27 de janeiro de 2021 | 10h53

A ata Copom da reunião de janeiro, divulgada hoje, trouxe grandes novidades para o mercado.

Para começar, uma surpresa: alguns membros do colegiado julgaram que o Copom, já na reunião de janeiro, “deveria considerar o início de um processo de normalização parcial, reduzindo o grau ‘extraordinário’ dos estímulos monetários”.

Em outras palavras, esses participantes do Copom sugeriram que uma alta da Selic já na primeira reunião do ano deveria ser considerada, mas essa foi uma posição descartada nas deliberações finais de manutenção da taxa básica em 2% (que foi unânime).

Para parte relevante do mercado, que via o início do ciclo de alta apenas no segundo semestre, a informação acima, naturalmente, foi quase um choque.

Em reação imediata, analistas estão trazendo suas projeções de início de elevação da Selic para maio ou março, sendo que este mês mais próximo passa à categoria de aposta plausível.

Alexandre Ázara, economista-chefe e sócio da gestora Mauá Capital, considera que a ata da reunião de janeiro foi mais hawkish (dura em relação ao risco inflacionário) do que o comunicado divulgado logo após o término do encontro, na quarta-feira passada.

Ázara também leu na discussão sobre a conveniência ou não de se manter em janeiro o grau “extraordinariamente elevado” de estímulo, acoplada a uma referência a um “processo de normalização parcial”, um sinal de que o BC pode fazer um ciclo de alta em mais de um estágio.

Na primeira etapa, ao longo deste ano, e se iniciando bem mais cedo do que o antevisto há poucas semanas (daí o teor ‘hawkish’), seria retirado o grau “extraordinariamente” elevado de estímulo.

Posteriormente se caminharia para  taxa próxima à neutra, isto é, a retirada do que sobrasse de estímulo.

“Parar de achar que na hora que o BC começar ele vai direto [até o neutro] talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que eu tirei da ata”, diz Ázara.

Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, vê uma mudança substancial na comunicação do BC entre o período de conversas da diretoria com o mercado pré-reunião do Copom, a divulgação do comunicado e a divulgação da ata.

“Nas conversas com o mercado, parecia tudo tranquilo, no comunicado, o gato subiu no telhado, e agora, na ata, vimos que de fato o início da alta está muito mais próximo”, diz Sobral.

No seu caso, essa mudança da comunicação já jogou a projeção de primeira alta da Selic do segundo semestre para maio, e com aumento da probabilidade de que seja em março.

A ata discorreu sobre os riscos em torno do cenário básico para a inflação. Há a ociosidade, especialmente nos serviços, que pode puxar a inflação mais para baixo, especialmente se a pandemia perdurar.

Por outro lado, as surpresas negativas com a pandemia podem prejudicar a situação fiscal, via novas medidas de apoio à população – a atual discussão no Congresso sobre substituir o auxílio emergencial, que acabou agora em janeiro, é o exemplo mais importante.

Em termos da inflação propriamente dita, alguns sinais relevantes da ata são os de que os choques da elevação do preço das commodities na inflação de alimentos e combustíveis continuam a ser vistos pelo Copom como temporários, mas têm se revelado “mais persistentes do que o esperado”.

O Copom também comunicou que “diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação”  – referência a determinados núcleos, possivelmente na leitura trimestral dessazonalizada e anualizada.

Mas se a inflação preocupa, o Copom também notou que indicadores positivos da atividade no final do ano passado “não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de Covid-19”.

Juntando a esse fator a retirada dos auxílios emergenciais, cria-se um quadro de incerteza sobre a continuidade da retomada neste primeiro trimestre de 2021.

Segundo o Copom, esses fatores “podem implicar um cenário doméstico caracterizado por mais gradualismo ou até uma reversão temporária da retomada econômica”.

Se é assim, por que a preponderância do temor inflacionário sobre o de atividade (com risco desinflacionário) neste momento?

A questão, observa Sobral, é que uma piora da atividade (que seria por si só desinflacionária), na esteira do agravamento da pandemia, aumenta a propensão do Congresso de aprovar novos programas de transferência, possivelmente por fora do teto dos gastos. E é esse o canal do risco inflacionário, via risco País, câmbio etc.

O Copom, aliás, é bem claro quanto a importância desse temor na ata: “O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”.

Em outras palavras, o Copom está ligadíssimo no que vai sair do Congresso a partir da eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado no início de fevereiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/1/2021, terça-feira.