Uma história de dois “timings”

Brasil está se preparando para alta das taxas de juros dos EUA, mas é difícil que fique pronto a tempo.

Fernando Dantas

10 de junho de 2015 | 13h38

Faz parte do discurso atual do Banco Central (BC) a ideia de que o Brasil está se preparando para o momento em que o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) vai elevar sua taxa básica, os Fed Funds, tirando-a do nível de praticamente zero no qual se encontra desde o final de 2008. Assim, há um grande esforço fiscal em curso, a inflação está sendo combatida (tanto pelo aumento dos juros quanto pela correção dos preços administrados, que apenas a represam) e o estoque de swaps cambiais está sendo reduzido.

Um experiente gestor nota, porém, que mesmo considerando que a nova equipe econômica está fazendo o que pode, o timing do ajuste brasileiro relativamente ao dos efeitos da política monetária norte-americana permanece difícil e desafiador. Ele observa que a variável crucial não é o momento em que os Fed Funds serão finalmente elevados, mas sim o momento em que o Fed comunicará que isto está para acontecer. Se ele estiver certo, o provável aumento de volatilidade pode vir antes do que parte do mercado supõe.

O evento de referência é o anúncio pelo ex-chairman do Fed, Ben Bernanke, que o início da redução gradual (“tapering”) da última rodada de afrouxamento quantitativo poderia estar próximo. O aviso foi dado em meados de 2013 e provocou grande volatilidade nos mercados globais, impactando diretamente o câmbio e outros ativos brasileiros.

Desde então, o Fed vem polindo ao máximo a sua comunicação com o mercado (o que se reforçou ainda mais com a troca de comando de Bernanke por Janet Yellen a partir de fevereiro de 2014). O objetivo é justamente o de evitar turbulências como a de 2013. Mas isto dificilmente impedirá que, no momento em que o Fed deixar claro que a alta é iminente–, o mercado antecipe ou talvez até exagere os esperados efeitos sobre a liquidez global.

Idealmente, o Brasil gostaria de ser enxergado como um país particularmente pouco vulnerável à drenagem da liquidez global. O problema, analisa o gestor, é que provavelmente não há mais tempo para concluir esse dever de casa. “Não há dúvida de que estamos muito mais preparados do que há seis meses, mas ainda assim é provável que o Brasil ainda seja visto como vulnerável quando a volatilidade vier”, ele diz.

Apesar de todos os avanços realizados nas frentes fiscal e monetária, a situação externa do País ainda é complicada. Nos 12 meses até abril, o déficit em conta corrente ficou em US$ 99,4 bilhões, ou 4,4% do PIB. Os investimentos diretos externos (líquidos dos investimentos diretos do Brasil no exterior) cobriram US$ 61,9 bilhões, ou 62% do déficit externo. A previsão do Banco Central para o ano é déficit em conta corrente de US$ 84 bilhões e investimento direto externo líquido do equivalente brasileiro no exterior de US$ 55 bilhões, o que dá um nível de cobertura de 65%.

O restante terá de vir por renda fixa e ações (ou, em caso contrário, ser coberto por redução de reservas), que são justamente os fluxos mais sensíveis aos juros americanos e internacionais. Uma das consequências prováveis da falta de tempo para reduzir a vulnerabilidade antes do início do aperto de liquidez é que as taxas de juros reais brasileiras terão de ser mais altas, para atrair os fluxos de capitais em renda fixa. É possível inclusive que este fator já esteja sendo levado em consideração na atual ofensiva de aperto monetário do Copom. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast.

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/6/15, terça-feira.

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