Uma reunião com mais dúvidas

Versão mais longa da entrevista com Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, em 17/1/17, terça-feira.

Fernando Dantas

20 de janeiro de 2017 | 16h55

O presidente do Banco Central, que chegou hoje (17/1/17, terça-feira) a Davos, onde participa do Fórum Econômico Mundial durante três dias, disse que o BC chegou à última reunião “com mais dúvida do que da vez anterior”. Desta forma, com a discussão de duas opções – cortar 0,5 pp e sinalizar 0,75 para fevereiro, ou cortar logo 0,75, que foi a escolhida –, não era possível fazer uma sinalização mais precisa antecipadamente.

“Às vezes decidimos no dia da reunião e pode ir para um lado ou para o outro, com mais dúvida não dá para sinalizar”, disse Ilan. Ele acrescentou que não vê nada demais em haver dúvida de início e se chegar a um consenso durante a reunião: “Buscamos o consenso sim, mas quando não houver, vamos comunicar”. A seguir, a entrevista.

O corte de 0,75 ponto porcentual surpreendeu, e já há quem fale em corte de 1 pp na próxima reunião.

Achamos que era momento de intensificar, e antecipar o que a gente julga ser o espaço para o afrouxamento da política monetária. A nossa comunicação é condicional e assim tem que ser entendida. Não quer dizer que não vamos levar em consideração a decisão que acabamos de tomar. Mas nos reservamos o direito de mudar se as coisas mudarem. Qualquer mudança no ritmo ou no orçamento da queda é condicionada principalmente pela inflação, pela expectativa de inflação.

Com o sr. vê as críticas do mercado sobre a comunicação do BC, em relação a essa última decisão?

Como eu disse, nossa comunicação é condicional aos dados. Se houver uma grande mudança, a interpretação muda. Mas não é para ser uma comunicação de alta frequência, não é para ficar com uma biruta mudando a cada dado novo. Por outro lado, se os dados indicarem todos o mesmo lado de uma mudança, com uma força mais relevante, aí o mercado tem que se adaptar. A gente foi acumulando informações de atividade, de inflação corrente, de expectativas, de núcleos, de projeções – caíram para 4,5% e 4,4% em 2017 e 2018 no nosso cenário de mercado. Tudo isso foi acumulando as evidências que levaram à decisão.

Mas o BC não poderia ter sinalizado essa mudança?

Há a ideia de sinalizar antes e acho bom que o instrumento tenha movimentos suaves. Mas às vezes a gente decide no dia da reunião. Ou melhor, todas as decisões são tomadas no dia da reunião, mas às vezes você tem mais certeza, mais segurança do que está pensando em fazer. E às vezes tem menos certeza. Quando isto acontece, pode ir para um lado ou para o outro lado, não tem como sinalizar. Na última reunião, viemos com duas opções que foram discutidas no dia. Uma intensificação menor com sinalização de uma maior para a frente; ou, o que acabou sendo decidido, uma intensificação maior logo, porque o comitê concluiu que os últimos dados todos caminharam na mesma direção e deram conforto necessário para a gente cortar mais. Mas isso foi decidido mais na hora da reunião.

Se havia dúvida, como se decidiu por unanimidade?

A gente busca o consenso, sim. Não há nada demais em o comitê ter dúvida e chegar ao consenso depois. A gente tem discussões, debates que são importantes para formar opinião, e no final a gente busca o consenso. Quando há um consenso é melhor, mas se em algum momento não houver um consenso, a gente vai comunicar.

O BC não se preocupa quando o mercado financeiro precifica uma queda de juros muito exagerada?

Nós não tentamos microgerenciar, influenciar numa frequência alta os preços de mercado. Se o Banco Central tentar ficar influenciando a curva, numa frequência alta, todo dia, toda hora, isso não funciona, não é nosso papel. Nosso papel é mostrar para todo mundo, para a sociedade, o que importa para nós em termos da decisão. E que isso fique cada vez mais claro para o futuro. Não há um desejo de tentar acertar a curva de juros exatamente que a gente quer. Até porque muitas vezes o cenário que as pessoas têm pode ser mais otimista e menos otimista que o nosso. Se o cenário mais otimista se realizar, não tem nada demais. Se for o mais pessimista, também não tem problema. Desde que os cenários sejam construídos com base nos fatos, nos condicionantes que estamos colocando, tudo bem. Vamos discutir os cenários, não é para discutir apenas qual preço o Banco Central quer. O importante é que todo mundo tenha o seu cenário, saiba como a gente reage, e aí tome sua decisão.

Por que a recuperação econômica está tão lenta?

Isto tem a ver com uma recessão que tem um processo de desalavancagem, com os excessos do passado. Muitas vezes você não sabe o timing exato da recuperação. É preciso um processo de limpeza, de limpar esses excessos das dívidas públicas e privadas. Houve exagero de intervenções nos últimos dois, três anos, congelamento de preços administrados, excesso de estímulo. Nem sempre a ciência econômica sabe em qual trimestre a atividade econômica vai se reverter. Mas a gente sabe que volta, que quando a gente muda a direção das políticas, e elas estão na direção correta, a recuperação vai acabar vindo – as reformas, as medidas tomadas, a queda da inflação, o espaço para queda de juros que se criou ao longo dos últimos meses. Mas não dá para saber exatamente quando isso vem.

Em Davos, uma preocupação é com a alta do dólar. O Copom também está preocupado?

Temos dito que o cenário internacional é incerto, está na ata. Há várias questões, da normalização da política monetária nos EUA até a incerteza sobre a política econômica americana que vem aí. Até agora, o impacto tem sido limitado. As commodities têm subido, o que tem ajudado os exportadores de matérias primas. Mas temos incerteza pela frente, vamos observar o que acontece.

Vocês estão seguros de que a inflação de serviços agora vai cair consistentemente?

No nosso trabalho não há nada que seja 100% garantido. Assim como o risco externo, a inflação dos preços mais sensíveis à política monetária é uma das condicionantes dos próximos passos do Copom. Dissemos na ata que temos que avaliar continuamente essa desinflação. O cenário das reformas, principalmente fiscais, é outro risco, tanto para o lado negativo quanto positivo. E há também o risco positivo de uma desinflação mais rápida do que o esperado.

O sr. leu o artigo do economista André Lara Resende sobre as teorias em que um juro maior causa inflação mais alta?

Não vou comentar artigos específicos. Mas há algo claro para nós: a ordem dos fatores é importante. Na nossa visão, é necessário primeiro que as expectativas de inflação caiam, a inflação caia, para que depois os juros caiam. Não achamos que dá para inverter essa ordem. Isso é algo que a gente aprendeu no passado, nas últimas décadas. Nós aqui, no Banco Central, somos obrigados a enfrentar a realidade, e não estamos no mundo dos desejos, aquele onde você deixa o instrumento cair para que depois a inflação caia. Eu diria que todo ano tem alguma teoria que é uma teoria dos desejos, que não é a realidade que os bancos centrais têm que enfrentar todo dia.

O sr. foi muito criticado recentemente por não ter cortado a Selic mais e de forma mais rápida em 2016?

Às vezes eu acho que quando a gente está quase lá, quebrando a espinha da inflação, fazendo esse trabalho de ancorar as expectativas, com as expectativas e a inflação começando a cair, aí é que é o auge das ansiedades, o auge das críticas, o auge das dúvidas. Na verdade, eu até sugeriria que isso poderia ser um indicador antecedente de uma queda da inflação mais forte. Eu acho que dessa vez não foi diferente. Mas é só esperar um pouquinho para ver o resultado.

O sr. é a favor de baixar a meta de inflação em 2019 (ela é de 4,5% em 2017 e 2018)?

Acho cedo para essa discussão. A decisão será tomada em meados do ano e não quero antecipar essa discussão.

E a autonomia formal do BC?

É uma discussão relevante, mas a autonomia de fato (na prática) que temos é muito importante, tanto que a gente a tem exercido e tem sido importante nestes momentos. Nós tivemos um choque de oferta, a inflação sobe e a economia entra em recessão, e é nesse momento que é importante a autonomia de fato, quando você toma decisões difíceis.

Como o BC pode contribuir para a recuperação da economia?

A política monetária contribui para a recuperação da economia, desde que as expectativas estejam controladas e na meta, e a inflação esteja caindo. Mas a política monetária é apenas um componente de vários que vão ajudar a recuperação. Tem que ter investimentos em infraestrutura, as concessões que estão acontecendo, as reformas fiscais que estão passando, as reformas microeconômicas. Quando você vê, é um conjunto de medidas, de vários aspectos, que vai fazer a economia se recuperar e crescer. A política monetária é apenas um componente e é preciso que isso fique claro. A política monetária tem o seu papel, mas é um papel em conjunto com outros.

Quanto o juro no Brasil pode cair?

Isso depende das reformas. O juro real de equilíbrio (que não freia nem acelera a economia) depende das reformas, não depende só da nossa vontade. Depende de produtividade, da eficiência do sistema financeiro. Tem reformas muito importantes, reformas já submetidas ao Congresso Nacional e outras reformas econômicas que também virão. Essas reformas, principalmente as fiscais, são cruciais para a queda da taxa de juro de equilíbrio, e, quando ela cair, por essas razões fundamentais, isto se reflete também numa inflação menor.

Como foi até agora a sua agenda em Davos?

Cheguei hoje, fico três dias. Em primeiro lugar, as pessoas estão preocupadas com a situação econômica global, com a política econômica dos Estados Unidos, com a reação da China. Hoje esteve aqui o presidente chinês. Tem questões globais que estão mexendo muito com as cabeças, gerando preocupações. O Brasil, para quem tem interesse no País, continua despertando o interesse dos investidores, isto está claro. Acho que há uma sensação de que muita coisa foi feita, que muita coisa está na direção certa, em termos de reformas. Mas obviamente as pessoas querem ver o futuro, querem ver isso continuar, há um desejo de ver o Brasil continuar a dar certo.

O BC mudou alguma coisa na política de swaps cambiais?

Não estamos mudando nada. O estoque foi reduzido de US$ 108 bilhões no pico para US$ 26 bilhões atuais. Quando apenas rolamos para manter o estoque, consideramos que isso é manter a intervenção neutra, é simples manutenção do status quo. É claro que podemos em outros momentos reduzir o estoque ou aumentá-lo, mas, quando isso acontecer, aí sim estaremos tentando afetar alguma coisa. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

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