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Uma semana para não esquecer

Na semana louca em que o pânico do coronavírus chegou com força nos principais países ocidentais e, especialmente, nos Estados Unidos, mercado globais entraram em pandemônio e o Brasil conseguiu a proeza negativa de se destacar no meio do caos, por atentar contra sua própria credibilidade.

Fernando Dantas

13 de março de 2020 | 20h33

Vão se encerrando hoje os dias úteis de uma semana que o mundo não vai esquecer. A chegada do pânico com o COVID-19 nos maiores países da Europa ocidental e, principalmente, nos Estados Unidos, representou um choque de altíssima voltagem nos mercados do mundo inteiro.

A disseminação do novo vírus pelo mundo é inevitável, mas a forma como cada país lida com esta crise de saúde pública é bastante variável.

A China, onde tudo começou, não teria como não ser pega de surpresa. Mas houve algum negacionismo das autoridades de início e, dada a velocidade do contágio, o governo chinês teve que optar pela paralisação quase total, inicialmente das áreas onde o surto se iniciou, e em seguida abrangendo porções cada vez maiores do país.

O arcabouço institucional chinês, menos impregnado de garantias de liberdade individual do que o das democracias, facilitou uma resposta rápida e enérgica quando finalmente o governo decidiu agir. Hoje, a China já deixou para trás o pior momento da epidemia.

Outros países orientais como Coreia, Cingapura e Japão agiram de forma relativamente rápida em relação ao COVID-19. A principal medida é testar maciçamente a população (obviamente focando em quem tem maior risco) antes que o vírus se espalhe para valer. E, a partir daí, isolar os infectados.

De qualquer forma, todo país por onde passa o coronavírus sofre uma parada, em maior ou menor grau, da economia.

Como explica um respeitado gestor de recursos, trata-se de um típico choque transitório. Manejando-se com eficiência a resposta médica e econômica à epidemia, em cerca de um a dois meses o pior do impacto pode já ter passado, como mostram os países orientais.

Uma resposta menos bem planejada pode levar a uma paradeira mais intensa e caótica, caso da Itália.

O problema é que reação dos Estados Unidos, ainda o mais importante centro da economia global, tem sido sofrível. Tudo indica já se esvaiu a pequena janela de tempo antes da difusão mais intensa do COVID-19, sem que a população norte-americana tenha sido intensamente testada. É sinal de que o impacto de saúde pública e econômico nos Estados Unidos pode ser mais intenso, o que é uma má notícia para o mundo. É em parte a essa percepção que os mercados globais reagiram esta semana.

Ainda assim, não há razão para que o choque do coronavírus não seja transitório, nos Estados Unidos e no mundo. Diversos bancos centrais mundo afora estão agindo para evitar que a crise econômica se prolongue para além da crise de saúde pública.

O problema é que a paradeira econômica estrangula o caixa das empresas, criando um problema de liquidez imediato. Se este não for devidamente tratado, pode se tornar um problema de solvência, muito mais grave e de efeitos muito mais prolongados.

É por isso que BCs do mundo inteiro estão injetando trilhões de liquidez nos mercados globais. O BC do Brasil indicou hoje que vai aderir ao movimento. Os BCs também estão induzindo os bancos a alongarem prazos de dívida, e estão relaxando critérios de empréstimo.

No Brasil, o choque do COVID-19 foi turbinado pela decisão extremamente infeliz do Congresso de estourar uma pauta bomba em cima do Executivo belicoso de Bolsonaro em plena quarta-feira, aumentando em R$ 20 bilhões por ano os gastos com o BPC, um programa de transferência para idosos e deficientes pobres.

O gestor mencionado acima não tem a menor dúvida de que a decisão do BPC piorou muito o impacto da turbulência sobre o Brasil.

Não que os indicadores já não viessem se deteriorando antes da derrubada do veto pelo Congresso, que reestabeleceu em definitivo a expansão do BPC, na tarde de quarta-feira. Mas a partir desse momento, câmbio, bolsa e juros aceleraram dramaticamente a sua piora.

Ontem, o dólar superou R$ 5 mesmo com intervenções do BC (depois, voltou), e a disparada dos DIs (juros futuros) acionou dois limites de alta. DI bater no limite de alta, observa o gestor, é fenômeno muito raro (aconteceu, por exemplo, no “Joesley day”).

Ele nota que o DI com vencimento em janeiro de 2029 chegou ontem a uma máxima de 9,7%, bem acima do ocorrido com os juros mexicanos de prazo equivalente – embora o México também tenha sido ferozmente atingido pelas turbulências da semana e tenha uma taxa básica de 7,25%, três pontos percentuais mais alta que a brasileira.

As lideranças do Congresso e o próprio governo deram alguns sinais de sensatez de ontem (12/3, quinta-feira) para hoje. Bolsonaro disse que as demonstrações de 15/3 deveriam ser “repensadas”, o que é uma espécie de desconvocação. Já Rodrigo Maia parece disposto a colaborar para alguma solução para o estrago fiscal da decisão do BPC, como a derrubada pelo Supremo ou um acordo no Congresso para atenuar o custo.

O problema, observa o gestor, é a perda de credibilidade. A partir de agora, não será surpresa se empresas, investidores e o mercado embutirem no risco Brasil a possibilidade de grandes pautas bombas endereçadas pelo Legislativo para explodir no colo de Bolsonaro.

Quanto à economia global em si (e de cada país), se as ações coordenadas dos BCs e as medidas econômicas especificas que países estão tomando (como evitar que trabalhadores parados percam renda e emprego, o que também envolve dar apoio às empresas) funcionarem, a volta da atividade econômica pode ser rápida e forte quando o pior da epidemia já tiver ficado bem para trás. E, nesse momento, países, empresas e consumidores encontrarão condições de liquidez extremamente favoráveis.

Se, por outro lado, a condução da crise de saúde pública e econômica for muito ineficiente por parte dos países que estão sofrendo seu maior impacto agora, recessão localizada ou global não é carta fora do baralho.

Em qualquer situação, os indicadores de atividade no segundo trimestre devem ser muito ruins, contaminando os números para o ano, que podem ser bem desagradáveis.

O Brasil, em particular, conseguiu perder credibilidade em plena crise e vai ter que suar mais a camisa para voltar aos trilhos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/3/2020, sexta-feira.

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