Uma trégua que já dura dois meses

Fatores externos e internos combinam-se para proporcionar momentos mais tranquilos no mercado financeiro que não foram previstos pelos analistas.

Fernando Dantas

23 de novembro de 2015 | 23h56

Já decorrem quase dois meses (esta coluna foi escrita e publicada em 19/11/15, quinta-feira) desde os dias 23 e 24 de setembro, quando houve um pico de nervosismo e deterioração dos ativos brasileiros, numa fase ruim para emergentes em geral. No dia 24/9, o DI com vencimento em 2021 chegou a ser negociado a 17,5%. Hoje (19/11) ele está em 15,4%. O dólar fechou em R$ 4,135 em 23/9, e atingiu R$ 4,248 durante as negociações de 24/9, antes de recuar e fechar em R$ 4,046. No momento em que esta coluna está sendo escrita, o dólar é cotado a R$ 3,723, numa valorização de 11% ante o fechamento de 23/9. Já o Ibovespa atingiu seu pior ponto recente em 28/9, fechando em 43.956, e logo no início da tarde de hoje era negociado 47.791,91, em valorização de 9,1% desde aquele ponto mais baixo.

Vários analistas acham que trégua dos mercados tem causas significativas que vêm tanto de fatores externos quanto internos. Em relação aos determinantes domésticos, entretanto, há a questão no mínimo curiosa de que não houve melhora alguma em relação ao suposto deflagrador das tensões de setembro: a súbita percepção de que a situação fiscal era muito mais precária do que parecia.

Segundo o Focus, o sistema de coleta de projeções de mercado do Banco Central (BC), a mediana das previsões para o resultado primário do setor público consolidado em 2015 e 2016 era de, respectivamente, -0,2% e -0,05% do PIB em 23/9; e de -1% e -0,56% em 13/11. A trajetória de uma data a outra foi de piora paulatina, sem oscilações.

Assim, parece bastante provável que a melhora doméstica tenha se dado mais pela questão política do que diretamente fiscal. E isso é coerente com o consenso de que o nó fiscal é, fundamentalmente, um nó político, numa leitura mais profunda. Assim, qualquer melhora no político pode ser um prenúncio de algum avanço, defasado no tempo, no front das contas públicas.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, nota que o final de setembro foi caracterizado pelo auge da percepção de crise institucional e política, com a sensação de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff era algo provável e cuja deflagração era iminente. Ele acrescenta que atualmente quem faz preços nos mercados de câmbio e juros é em grande parte o investidor estrangeiro, para quem a ameaça de interrupção do mandato de Dilma representava o desconhecido. “Na dúvida, tira o dinheiro, porque não se sabe o que vem em seguida”, diz.

Daquele momento até hoje, diminuiu sensivelmente a percepção de impeachment iminente, o que pode estar ligado em parte ao enfraquecimento político de Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que era “o principal algoz do governo”, segundo Rocha.

Além disso, registraram-se pequenos avanços na articulação política do governo, que culminaram na recente capacidade da base de sustentação de manter vetos presidenciais cruciais a medidas da chamada “pauta-bomba”, que ameaçava ainda mais o equilíbrio fiscal.

Outro gestor de recursos, bastante reconhecido pelo mercado, acrescenta que a troca de Aloizio Mercadante por Jaques Wagner na Casa Civil, posto estratégico da articulação política, também contribuiu para melhorar a governabilidade. E o restante da reforma ministerial, aquinhoando o PMDB com uma fatia mais suculenta de poder, ainda que tenha tido resultados abaixo do esperado, mais ajudou do que atrapalhou.

O gestor considera que “a própria pressão causada pela deterioração dos mercados pode ter contribuído para que os políticos se mexessem mais”, em termos do avanço, ainda que modesto, da disposição do Congresso em não atrapalhar os planos econômicos do governo.

Ainda do lado doméstico, Rocha, da JGP, destaca também a entrevista do presidente do BC, Alexandre Tombini, em 24/9, na qual o dirigente disse que “certamente todos os instrumentos estão à disposição do BC” – uma referência ao overshooting cambial que foi interpretada pelo mercado como sinal de disposição da autoridade monetária de até, no limite, vender reservas internacionais para controlar a volatilidade do câmbio.

 

Fatores externos 

 

Independentemente dos fatores domésticos, entretanto, é inegável que o Brasil, assim como outros emergentes, foi beneficiado por um ambiente externo que se tornou mais benigno depois de um pico de nervosismo também por volta de setembro.

Segundo o gestor mencionado acima, “a percepção foi de que os BCs entraram para salvar (os mercados”. Assim, nos Estados Unidos, a primeira elevação da taxa básica de juros a partir do seu nível de praticamente zero (mantido há sete anos) foi adiada de setembro para – provavelmente – dezembro, ao mesmo tempo em que o Federal Reserve (Fed) reforçou a sua comunicação de que muito provavelmente o ciclo de elevação será muito suave e gradual.

Na zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou mais uma rodada de políticas de afrouxamento quantitativo (injeção de liquidez com compra de títulos). Na China, depois de uma mudança de câmbio em agosto que foi interpretada por alguns como um prenúncio de um movimento continuado de desvalorização (que por sua vez estaria ligada ao suposto alarme das autoridades com a possibilidade de um pouso brusco da economia), o Banco do Povo da China (PBC, na sigla em inglês, BC chinês) atuou no sentido de dissipar aqueles temores com uma trajetória de câmbio em que o renminbi valorizou-se e desvalorizou-se. Já no Japão, finalmente, mesmo diante das negativas do Banco do Japão (BC), há expectativa de nova rodada de afrouxamento quantitativo no início de 2016.

Esse conjunto de fatores diminuiu a volatilidade e os prêmios de risco nos últimos dois meses no mundo todo, incluindo o Brasil. A melhora das condições internacionais de liquidez aguça o apetite dos investidores estrangeiros, imersos num mundo de juros baixíssimos, pela possibilidade de altos retornos do Brasil, especialmente diante da queda dos ativos.

“Hoje os estrangeiros com quem converso dão sinais de que têm alguma vontade de entrar, porque não estão mais com visão de ruptura institucional e veem o câmbio depreciado, as altas taxas de juros as oportunidades de compra; quando eles conversam com os brasileiros, são expostos a uma visão mais pessimista, mas ainda assim pararam de tirar dinheiro e de fazer hedge”, diz Rocha.

Tanto o sócio da JGP quanto o outro gestor citado, entretanto, veem fragilidades evidentes na atual trégua dos mercados. Rocha nota que “do lado interno, os problemas estruturais não mudaram nada, o déficit primário em 2015 vai ser elevado e a tendência é a mesma para 2016, e a paralisia política continua, sem perspectiva de uma mudança efetiva”.

Já no lado externo, o principal temor de ambos é que eventuais sinais sucessivos de bom fôlego da economia americana, especialmente se ligados ao mercado de trabalho e a salários, podem mudar a postura do Fed (ou a percepção do mercado) que aponta para um ajuste da política monetária norte-americana extremamente suave. Qualquer solavanco nos Estados Unidos pode provocar novas ondas de turbulência que com certeza afetariam um país emergente fragilizado como o Brasil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/11/15, quinta-feira.

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