Uma visão da nova matriz em maio de 2013

Recupero uma coluna de maio de 2013, em que comento o "esfacelamento da nova matriz econômica" e prevejo que a presidente Dilma estava deixando para si mesma uma "herança maldita"

Fernando Dantas

11 Setembro 2015 | 18h19

Reprodução de coluna minha da Broadcast de 15 de maio de 2013:

FERNANDO DANTAS: O ESFACELAMENTO DA NOVA MATRIZ ECONÔMICA

O governo da presidente Dilma Rousseff parece desnorteado diante do esfacelamento da chamada “nova matriz econômica”. A combinação de redução agressiva do juro real, à custa de comprometer a percepção de autonomia operacional do Banco Central (BC), com desvalorização nominal da moeda não gerou os resultados esperados.

O almejado crescimento médio de 4,5% a 5% durante o mandato da presidente não vai acontecer. Na verdade, será muito difícil chegar a uma expansão média medíocre na faixa dos 3%. A taxa de investimento não saiu da sua letargia até agora, teimando em permanecer abaixo de 20% do PIB. O sonhado nível mínimo de 22%, que seria uma precondição para o crescimento sustentável acima de 4%, parece muito distante.

A inflação voltou, tornou-se um problema político, e isso aconteceu sem que o trade-off heterodoxo se manifestasse – isto é, sem aumentar o crescimento econômico, nem ao menos no curtíssimo prazo.

Evidentemente, esse é o cenário de pesadelo para o BC. Apesar da inegável perda de reputação de autonomia do Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado tem técnicos de bom nível que não podem deixar de se sentir desconfortáveis diante da atual situação.

O Copom explicitou da forma mais clara possível que o baixo crescimento atual da economia brasileira deve-se a restrições de oferta, que todos sabem ser principalmente um problema no mercado de trabalho, superaquecido e com limites até demográficos. Ainda assim, a Fazenda prossegue com estímulos à demanda, cuja essência é a redução do superávit primário em plena temporada de pressões inflacionárias.

É nítida a posição defensiva de alguns importantes membros do Copom nas suas comunicações públicas pessoais. As justificativas referem-se estritamente à política monetária, como se as demais variáveis relevantes, especialmente a política fiscal, fossem fatores exógenos comandados por alienígenas. Isto lembra os momentos mais tensos e conflituosos da gestão de Henrique Meirelles. Dotado de personalidade pública de maior envergadura, Meirelles não escondia nos bastidores sua insatisfação com a política econômica fora da esfera do Banco Central.

A própria Fazenda, no entanto, parece rachar em praça pública. Nelson Barbosa, secretário-executivo, deixará o governo em junho. À primeira vista, pode-se ver certa congruência na sua saída, já que Barbosa foi o principal mentor intelectual da nova matriz econômica.

Entretanto, num sinal claro da confusão que reina na política econômica, a saída de Barbosa pode não ser o que parece. Há indicações de que o novo “homem forte” seria o secretário do Tesouro, Arno Augustin, que é percebido como representante de uma heterodoxia mais pronunciada que a do próprio Barbosa.

Augustin é considerado pelos críticos do governo como o principal responsável pela chamada “contabilidade criativa” do superávit primário, que permite que metas ortodoxas sejam oficialmente atingidas, enquanto o resultado efetivo é bem mais baixo.

Se os rumores sobre a ascendência de Augustin, com a saída de Barbosa, forem confirmados, é como se o governo tivesse resolvido dobrar a aposta na nova matriz econômica. O problema é que não há nenhum discurso concatenado sobre por que isto está sendo feito.

O ministro Guido Mantega, que poderia dar a tônica da política econômica, sobressaindo-se em relação a seus auxiliares, não está conseguindo arbitrar de maneira clara quais são as diretrizes e os objetivos da sua gestão. Recentemente, ao sugerir que a geração de emprego importa mais do que os números do PIB, ele deu a impressão de praticamente entregar a toalha em relação aos ambiciosos objetivos de expansão econômica do início do mandato.

A indústria, cuja retomada parecia ser o objetivo maior da nova matriz econômica, continua sufocada pelos custos salariais, energéticos, tributários, de infraestrutura, etc. De maneira contundente, o respeitado economista Affonso Celso Pastore descreveu, na sua apresentação de ontem no Fórum Nacional, o obituário da tentativa, a partir de 2011, de usar o câmbio para relançar a indústria. Com a combinação de restrição no mercado de trabalho e política fiscal expansionista, o custo salarial disparou, enterrando as vantagens que seriam teoricamente obtidas com um câmbio nominal mais depreciado.

De novo, num processo semelhante ao do trade-off heterodoxo entre inflação e crescimento, a política de depreciação nominal colheu inflação sem obter o benefício da competitividade manufatureira.

A mais esse fiasco o governo vem reagindo com medidas protecionistas, articuladas de forma confusa, que estimula a ação dos lobbies empresariais. São iniciativas que podem ter efeitos positivos de curto prazo, mas que a experiência brasileira ensina que são prejudiciais à produtividade, a raiz mais profunda da competitividade.

E há, finalmente, a extensa e complexa agenda de concessões de serviços públicos, melhoras na infraestrutura, racionalização do sistema tributário, redução do custo de energia, etc. Aqui, o governo vem fazendo grandes esforços na direção correta, mas que são prejudicados pela base política no Congresso, extremamente frouxa em termos ideológicos e programáticos, e por certa dificuldade de negociação da presidente. O preconceito renitente das bases petistas à privatização e à ação do setor privado em geral torna tudo mais difícil.

Ironicamente, porém, o esfacelamento da nova matriz econômica combina-se com um momento político ainda extremamente favorável à presidente Dilma Rousseff. O aperto no mercado de trabalho vem beneficiando de forma especialmente intensa a base da pirâmide salarial. O emprego, a renda e o consumo das massas populares continuam em ótima forma, e isto se reflete nos altos índices de popularidade presidencial, às vésperas de um ano eleitoral.

A boa notícia política, como também notou Pastore no Fórum Nacional, é uma má notícia econômica. A tentação de tentar “empurrar com a barriga” a política econômica até a almejada reeleição de Dilma é enorme. Isto, porém, só fará aumentar a “herança maldita” que a presidente se auto legará (caso vença) em 2015. A dor do esfacelamento da nova matriz econômica pode ser adiada, mas não tem como ser indefinidamente suprimida.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/05/2013.