Uma visão sobre os riscos da retomada

O economista Livio Ribeiro, do Ibre/FGV, explica por que está bem mais cauteloso do que a média sobre a recuperação cíclica da economia brasileira.

Fernando Dantas

04 de dezembro de 2020 | 20h40

Os mercados tiveram uma semana de otimismo no Brasil, com alta da bolsa e queda do dólar e da curva de juros (nestes dois últimos casos, hoje há alguma alta, mas que não muda a fotografia da semana).

Hoje, o Bradesco subiu de 3,5% para 3,9% a sua estimativa de crescimento do PIB em 2021 – mesmo com o número do terceiro trimestre, divulgado ontem, abaixo do projetado. A visão é de retomada cíclica.

Mas há controvérsias. Para o economista Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre-FGV, parte do otimismo vem do cenário internacional e deriva dos avanços recentes na direção de se iniciar a vacinação da população contra a Covid-19 –  especialmente em países ocidentais avançados, duramente atingidos pela segunda onda da pandemia.

Como ressalva o economista, porém, nem tudo são flores no noticiário da vacina. A Pfizer anunciou ontem um corte pela metade no fornecimento de vacinas (em parceria com a BioNTech) este ano por problemas com matérias primas.

Não é o fim do mundo, mas um sinal de que muitas dificuldades e imprevistos podem surgir no gigantesco desafio científico e logístico de vacinar boa parte da humanidade.

No Brasil, Ribeiro vê um horizonte para a vacinação particularmente turvo, quando se pensa nos efeitos econômicos.

Segundo o plano inicial de vacinação da população brasileira divulgado pelo Ministério da Saúde esta semana, a operação se iniciaria em março com vacinas para profissionais de saúde, idosos a partir de 75 anos, população indígena e os que vivem em asilos ou instituições psiquiátricas com mais de 60 anos.

Em seguida, há mais três fases, com, respectivamente, população de 60 a 74 anos, pessoas com comorbidades e professores, forças de segurança e salvamento, agentes prisionais e população carcerária.

Não há menção à vacinação total da população.

Ribeiro observa que pode ser um plano bom do ponto de vista sanitário (na verdade, ele não entra no mérito dessa questão), mas, em termos econômicos, aqueles grupos não são os que fazem a maior diferença – pelo contrário.

O que fará o setor de serviços voltar com plenitude é o fim da pandemia, e não está claro, pelo que foi divulgado até agora sobre a vacinação no Brasil, se e quando isso ocorrerá em 2021.

O economista também pensa que o grande repique da pandemia nas últimas semanas, chame-se segunda onda ou não, tem impacto no setor de serviços, mesmo que não leve à decretação oficial e generalizada de novas quarentenas.

A própria população tende a voltar parcialmente ao isolamento social quando sente medo de contrair a doença. Não quer dizer que vá todo mundo ficar trancado em casa, mas pode afetar negócios como restaurantes, bares, entretenimento, viagens etc.

O PIB do terceiro trimestre reforçou que o empecilho que ainda emperra a retomada é o setor de serviços, o maior da economia. Na visão de Ribeiro, não está claro que a vacina vá remover esse obstáculo num horizonte de tempo favorável que garanta um bom desempenho econômico em 2021.

Outra questão muito duvidosa para o economista é a resultante de fatores contracionistas e expansionistas no início de 2021.

No primeiro grupo, o principal fator é o fim do auxílio emergencial. No segundo, a transformação em consumo da poupança extra acumulada pelas famílias na pandemia e uma suposta retomada do mercado de trabalho.

Ribeiro nota que quem sofrerá o impacto do fim do auxílio, famílias mais pobres que estavam consumindo mais bens, é diferente de quem mais acumulou poupança, segmentos de maior renda que não puderam consumir serviços na pandemia.

Ao contrário do que costuma ocorrer com bens, serviços não consumidos não se transformam depois em consumo maior de serviços, com demanda acumulada.

Se alguém costumava sair para comer fora duas vezes por semana, e interrompeu o hábito durante a pandemia, é mais provável que retorne ao mesmo costume quando ela passar do que comece a comer fora quatro vezes por semana “para compensar”.

Além disso, não é garantido que nenhuma parte da poupança criada por razão circunstancial (não havia como consumir serviços) não venha a se transformar em poupança precaucional, num momento socioeconômico de tanta incerteza.

Assim como não é evidente que a retomada do mercado de trabalho possa compensar em grau relevante o fim do auxílio emergencial.

O ponto de Ribeiro não é afirmar que a resultante dessas forças contracionistas e expansionistas será assim ou assado, mas sim o de apontar a enorme incerteza que paira sobre isso.

Ele contesta a visão de recuperação em “V”. Para o economista, “não se pode afirmar isso se a gente levar em conta que se partiu [ele se refere ao PIB do terceiro trimestre] de uma base extremamente baixa, com um caminhão de estímulos que estão programados para acabar este ano – uma retomada em “V” tem que ter tração própria, tem que ser sustentável”.

Ribeiro não nega que a economia esteja voltando a andar, mas critica a ideia de que não há muito o que temer no início de 2021 – visão esta cujo corolário, que Ribeiro também questiona, é que o melhor cenário seria mesmo o fim abrupto do estímulos em janeiro, por causa da questão fiscal.

“Não estamos discutindo direção, mas intensidade e certezas”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/12/2020, sexta-feira.