Vale o que está escrito

Por que o que dizem políticos e policymakers a eles ligados – como o superequivocado artigo de Guido Mantega na Folha de São Paulo, com aval de Lula – sempre importa, independentemente de se as ideias serão aplicadas ou não.

Fernando Dantas

06 de janeiro de 2022 | 19h14

Esta coluna tem o princípio, talvez antiquado, de analisar as ideias e os planos que políticos e policymakers manifestam e divulgam, e não aquilo que eles supostamente farão, mas que não tem nada a ver com as ideias e os planos que manifestam e divulgam.

Sem nenhum menosprezo pelos analistas que se detêm sobre as secretas intenções de políticos e policymakers – e há alguns bastante competentes nessa leitura de sinais de fumaça –, há algumas razões para a abordagem “vale o que está dito e escrito” da coluna.

A primeira é que o colunista, tendo notado acima que há analistas competentes na leitura dos sinais de fumaça, modestamente reconhece que não faz parte desse seleto time e não tem muito a contribuir nessa esfera.

Mas não se resume a isso. A experiência de acompanhar a economia e a política profissionalmente há mais de três décadas me ensinou que a pregação de ideias ruins por políticos e policymakers, seja na oposição ou no poder, seja para valer ou não, é danosa. E também aprendi que essas ideias frequentemente acabam de fato sendo implementadas, quando seus portadores chegam ao governo.

É verdade que nem sempre isso acontece, como demonstram os “estelionatos eleitorais” praticados nas últimas décadas.

Há o de 1998/99, com Fernando Henrique e a insistência até a eleição de que o câmbio semifixo era sustentável, seguida da desvalorização inicialmente caótica de 1999. A tapeação eleitoral chamuscou bastante FHC e, junto com outros fatores igualmente importantes, pavimentou a vitória do PT em 2002.

É difícil classificar a virada ortodoxa de Lula em 2003  (em relação ao discurso do PT até 2002) de estelionato eleitoral, porque, embora muito em cima da hora, houve aviso, na forma da “Carta aos Brasileiros” e outros sinais. Ainda assim, foi um cavalo de pau e tanto em relação à pregação do partido durante duas décadas.

E houve finalmente o mais desastroso dos estelionatos, cometido por Dilma em 2014/15, ao iniciar o seu segundo mandato com o choque de uma virada de 180 graus na política econômica, da heterodoxia de Mantega para a ortodoxia de Joaquim Levy, sem nenhum aviso prévio. Foi desaguar no impeachment.

É interessante notar que, nos três casos, pode se fazer uma leitura negativa em termos de consequências políticas e econômicas. O que, de certa forma, como se verá, reforça a percepção de que ideias ruins postuladas por políticos e policymakers são, sim, prejudiciais à democracia e ao desenvolvimento econômico.

No caso do segundo mandato de Fernando Henrique, o grande salto de qualidade da política econômica, com Arminio e o regime de metas no Banco Central, e uma política fiscal que finalmente era para valer, foi contaminado pela legitimidade político-eleitoral capenga. Os acertos técnicos se desmoralizaram politicamente. Não só por isso, claro, Serra, candidato de FHC, foi derrotado em 2022.

No governo de Lula, o velho pensamento heterodoxo e populista em economia, da tradição histórica petista, que se acreditava superado no curto período de 2003-2005, voltou gradativamente à política econômica, ganhando impulsos extras com a crise global de 2008-2009 (na qual uma política keynesiana inicialmente correta foi prolongada artificialmente por razões políticas) e com a teimosia de Dilma.

As velhas ideias, que eram o discurso “de mentirinha”, do “não é para levar a sério”, na interpretação contemporânea ao que ocorria de 2003 a 2005, voltaram com força para fazer o imenso estrago da nova matriz econômica.

Em 2014/15, obviamente, foi descomunal o desastre econômico e político. Nessa segunda seara, a credibilidade do sistema político-partidário foi pulverizada – a crise econômica multiplicou a potência da reação anti-institucional do eleitorado provocada pelos escândalos de corrupção –, levando à turbulência e ao caos que foram desaguar em Bolsonaro.

O que nos leva à última razão pela qual a coluna prefere se ater ao que está dito e escrito – ou ao que já tenho sido concretamente realizado – por políticos e policymakers.

Uma democracia só pode ser funcional em termos de desenvolvimento socioeconômico se houver uma “seleção natural” de ideologias e programas de governo, pela qual a sociedade progressivamente aprende a separar o joio do trigo, o que é danoso do que é benéfico.

Evidentemente, os ciclos econômicos e os choques imprevisíveis (como a pandemia), locais e globais, além das defasagens entre a implementação e os efeitos de muitas políticas públicas, dificultam esse aprendizado democrático. Ainda assim, não o impossibilitam e, de qualquer forma, não há outro caminho para melhorar a governança numa democracia.

Dessa forma, políticos e policymakers que iludem, ocultam ou disfarçam na hora de expressar suas intenções e planos de governo sempre estão subtraindo qualidade da democracia – mesmo quando fazem coisas boas que não prometeram, ou não fazem coisas ruins que prometeram.

Muitos leitores talvez já tenham suspeitado que o gatilho para esta coluna foi o artigo completamente equivocado do ex-ministro Guido Mantega na Folha de São Paulo, à guisa de representar ideias econômicas de Lula, o favorito de 2022.

A crítica ao artigo em si – que finge que a responsabilidade dos condutores do experimento heterodoxo termina em 2014, para eximi-los do desastre causado pela nova matriz e jogar a culpa em quem herdou a terra arrasada – já foi exaustivamente dissecada por competentes analistas e não é o objetivo desta coluna.

A mensagem aqui é uma só: numa perspectiva de eventual vitória de Lula este ano, o artigo de Mantega é um sinal muito ruim. E tanto faz se suas ideias vão ou não influenciar a possível nova etapa de governo petista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado pelo Broadcast em 6/1/2022, quinta-feira.