Varejo desperta otimismo

Resultados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de março vieram substancialmente melhores que a mediana das projeções do mercado. Para Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, é mais um sinal positivo. Ela prevê que PIB cresça 4% este ano, se não houver terceira onda.

Fernando Dantas

07 de maio de 2021 | 20h15

Os resultados do varejo de março vieram com uma expressiva surpresa positiva em relação às projeções medianas do mercado.

Houve recuo de 0,6% no volume de vendas ante fevereiro, na série dessazonalizada, e avanço de 2,4% ante março de 2020.

No chamado “varejo ampliado”, que inclui veículos e materiais de construção, a queda foi de 5,3% ante fevereiro (dessazonalizadamente), com avanço de 10,1% na comparação com março do ano passado.

O que importa para os analistas, entretanto, é que esses números vieram bem melhores do que suas projeções.

É possível fazer diferentes leituras dessa surpresa positiva. A interpretação de Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, é decididamente positiva.

A economista vê uma série de surpresas positivas se materializando desde a fase de maior pessimismo mais no início do ano. Aquele foi o momento, ela nota, em que algumas instituições chegaram a projetar crescimento do PIB em 2021 abaixo de 3%, na área de 2,8%, 2,5%.

Os dados econômicos de fevereiro, no entanto, vieram bem mais fortes do que o previsto. Falou-se da não realização do Carnaval (mais dias úteis) como um fator que poderia ter condicionado aqueles resultados, mas Luana diz que, mesmo se levando isso em consideração, fevereiro foi uma forte surpresa positiva.

Em março, a produção industrial surpreendeu para cima e, agora, o varejo. A economista destaca em particular que a queda na margem de 5,3% do varejo ampliado em relação a fevereiro (dessazonalizadamente) é muito menor que a mediana das expectativas de mercado – no caso, o valor mediano do Projeções Broadcast era de recuo de 11,55%.

Os indicadores econômicos de fevereiro e março mudaram a cara do primeiro trimestre, segundo Luana. Ela elevou sua projeção de crescimento no 1º tri, em relação ao último trimestre de 2020, de 0,2% para 0,3%, na série dessazonalizada.

Luana ressalta que a pequena diferença de 0,1 ponto porcentual  quer dizer muito mais do que parece. Por questões técnicas ligadas à metodologia de dessazonalização, aquele aumento de 0,2% para 0,3% corresponde, na comparação do primeiro trimestre de 2021 com o 1º tri de 2020, à mudança de uma queda de 1,3% para uma queda de 0,5%.

Segundo a economista, chega-se às novas projeções mesmo computando serviços (a PMS de abril ainda vai ser divulgada) ainda bem prejudicados pela pandemia.

“Março não foi tão péssimo quanto se esperava e os dados de abril estão melhores do que os de março”, aponta a economista.

Para o segundo trimestre de 2021, a sua projeção é de uma queda dessazonalizada de 0,2% ante o primeiro. Mas ela classifica a previsão como “conservadora”.

“A antecipação do 13º de aposentados e pensionistas deve ajudar no segundo tri, que tem espaço para nem cair [ante o primeiro, na série dessazonalizada], mas por enquanto mantenho o -0,2%”, ela diz.

Luana cita outros elementos de um quadro de retomada mais consistente no segundo trimestre: alta de 17% nos emplacamento de veículos em abril ante março (Fenabrave); dados melhores de confiança do comércio, dos consumidores e até de serviços; mobilidade em abril maior que em março (mesmo com o agravamento da pandemia); queda sistemática da ocupação de UTIs em São Paulo, dado levado em conta pelo governo estadual para apertar ou afrouxar medida de isolamento social; dados de cartão de crédito dos principais bancos; e consumo de energia.

E, no segundo semestre, é quando a economista de fato vê a economia se desembaraçando para valer dos entraves ligados à pandemia, em especial do fechamento parcial do setor de serviços.

A aquisição de 100 milhões de vacinas da Pfizer pelo governo, para ela, pode fazer com que o imunizante acabe sendo tão aplicado no Brasil até o fim do ano quanto o da AstraZeneca-Oxford.

Uma vacinação mais maciça da população traria de volta com mais força serviços prestados à família, serviços da administração pública (escolas, atendimento hospitalar extra Covid), transportes etc., todos segmentos com muito espaço para crescer, o que faria diferença significativa no PIB.

Assim, Luana tem previsão de crescimento do PIB brasileiro em 2021 de 4%, bem acima da mediana de mercado. Ela nota que a projeção mediana, de pouco mais de 3%, está em tendência de alta.

A economista, entretanto, faz uma importante ressalva: em caso de uma terceira onda da pandemia, todo o seu cenário otimista fica comprometido.

Focando mais especificamente na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC, do varejo) divulgada hoje, Lucas Rocca, economista da consultoria LCA, faz uma análise não tão otimista quanto a de Luana.

Ele observa, por um lado, que “o resultado surpreendeu positivamente e mostrou um efeito relativamente moderado do recrudescimento da pandemia em março”.

Ainda assim, ele nota, foi uma PMC negativa, com quedas disseminadas.

O economista aponta que segmentos como móveis, eletrodomésticos, livros, jornais e revistas e veículos, motos e peças tiveram quedas em torno de 20%, na comparação de março com fevereiro, na série dessazonalizada.

Vestuário e calçados caíram mais de 40% na mesma base de comparação.

A surpresa positiva, que contrabalançou essas quedas, segundo Rocca, foi o segmento de hipermercados, supermercados,  produtos alimentícios bebida e fumo, com avanço (único entre os segmentos) de 3,3% em março ante fevereiro na série dessazonalizada. Previa-se um bom número, mas veio melhor que o esperado, e é um item de bastante peso no varejo, especialmente restrito.

Os artigos farmacêuticos, estáveis na margem, também vieram melhor que o projetado.

Ainda assim, continua o economista, as quedas em março mostram o efeito do recrudescimento da pandemia, do fim de programas sociais e do aumento de inflação.

Numa perspectiva mais ampla, do primeiro trimestre, Rocca enxerga “uma desaceleração clara das vendas no varejo, tanto restrito quanto ampliado”.

Depois de um pico em outubro, houve um movimento consistente de desaceleração, que levou o comércio aquecido de volta ao nível pré-pandemia.

Tomando a comparação do primeiro trimestre de 2021 contra o último do ano passado, nota-se que a desaceleração do varejo é generalizada, com exceção de uma alta de 1,9% dos artigos farmacêuticos e uma queda pequena de 1,2% de hiper e supermercados – o que mostra, para Rocca, que a resiliência acabou reservada apenas para produtos essenciais.

Ainda assim, o economista diz que, apesar de a segunda onda em 2021 ser muito mais intensa que a primeira, em 2020, está claro que o choque na atividade econômica este ano será bem menor.

Ele prevê nova queda do varejo em abril, na comparação com março (dessazonalizada), mais forte do que a de março, mas longe das quedas livres do ano passado.

O cenário do varejo até o fim do ano, para Rocca, está – como também afirmou Luana, inclusive em relação à economia de forma mais ampla – completamente ligado à evolução da pandemia, sobre a qual pesa a grande incerteza em relação ao ritmo da vacinação.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/5/2021, sexta-feira.

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