Venda de carros preocupa

Fernando Dantas

18 de fevereiro de 2014 | 10h12

A indústria automobilística está numa situação preocupante, com excesso de estoques e queda nas vendas domésticas em fevereiro. E isso pode afetar negativamente o PIB do primeiro trimestre. A análise é da gestora de recursos JGP, do Rio. A JGP projeta crescimento de 0,2% do PIB no primeiro trimestre, e de 1,5% no ano. Mas há risco de revisão para baixo, diz o economista Augusto Vanazzi, e uma das principais razões é justamente o desempenho das vendas domésticas do setor automotivo.

O economista acompanha o tracking diário de emplacamentos de automóveis e veículos comerciais leves da Fenabrave. Ele explica que o aumento do IPI no início de janeiro levou a um aumento da demanda, com as revendedoras atraindo os consumidores com a oferta dos últimos veículos com incentivo tributário.

Em fevereiro, porém, parece estar havendo o “payback”, isto é, um movimento que devolve os ganhos de janeiro. A média de vendas por dia útil em fevereiro caiu para 11.223, a menor desde janeiro de 2011, e 9,2% abaixo dos 12.358 de fevereiro de 2013. A média diária de fevereiro de 2014 também está bem abaixo da mediana do período entre 2009 e 2013, de 12.400.

No primeiro bimestre até agora, a média diária de 2014 é de 12.421, 3,9% inferior à do ano passado.

Outro fator de preocupação, para a JGP, são os estoques. Apesar de terem caído do equivalente a 37 dias de vendas para 33,6 entre dezembro e janeiro, estão acima da média histórica, desde 2003, de 30 dias.

“O setor está estocado e com queda forte de demanda”, analisa Vanazzi.

E há, finalmente, o problema da Argentina, mercado de destino de 85% das exportações de automóveis do Brasil em 2013. Aproximadamente 15% da produção brasileira é exportada, e, com a desvalorização argentina e provável redução de importações, é possível que os fabricantes nacionais sintam um efeito não desprezível. A JGP avalia que uma queda de 20% nas importações argentinas de automóveis poderia levar a uma redução de 2,6% da produção brasileira. Uma queda de 30% causaria uma contração de 3,9%.

O setor automotivo é central para a indústria, e pode piorar ainda mais o quadro já difícil da produção industrial. Nos últimos anos, em diversas ocasiões, o governo mostrou a importância que dá à indústria automobilística, que sempre foi peça fundamental na estratégia de estímulos tributários. Agora, porém, com a política de incentivos em xeque pela perda de arrecadação, o setor automotivo surge como uma preocupação a mais num ano em que as perspectivas do PIB já são sombrias.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada na AE-News Broadcast na sexta-feira, 14/2/2014

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