Vendaval contra

Governo Temer enfrenta uma combinação de fatores de turbulência, entre os quais um PIB que só faz cair, mas o maior erro seria abandonar ou aguar a política econômica que vem sendo implementada.

Fernando Dantas

02 Dezembro 2016 | 20h53

Considerando todos os eventos negativos que adentraram o cenário de um mês para cá, até que o novo arcabouço econômico que vem sendo montado por Henrique Meirelles e sua equipe dá mostras de uma resistência razoável. Isto deveria estar bem presente na mente de políticos e lobbies empresariais que se impacientam com a política econômica em curso e ensaiam uma “fritura” de Meirelles, como analisou mais cedo Fábio Alves, colunista do Broadcast.

Como nota Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, três frentes de dificuldade turvaram o horizonte da retomada da economia brasileira. Dois deles são surpresas. A mais recente surpresa negativa, claro, é a vitória de Donald Trump, que piorou muito o cenário internacional para emergentes. O juro referencial de dez anos do Tesouro norte-americano saltou de pouco menos de 1,8% para cerca de 2,4% da eleição para cá, e o dólar disparou ante várias moedas.

A segunda surpresa – não para todos os analistas, mas para a maioria – foi a decepção da atividade econômica brasileira neste segundo semestre, que está derrubando as projeções de crescimento em 2017 (o Itaú bravamente colocou-se hoje na contracorrente do pessimismo com sua revisão de “apenas” 0,5 ponto porcentual na previsão do PIB do ano que vem, de 2% para 1,5% – tomara que esteja certo!).

Uma recuperação mais tardia e mais lenta retroalimenta-se com pioras do resultado fiscal, via menores receitas, e da governabilidade política.

Finalmente, o evento negativo mais previsível, mas que não necessariamente tinha de ocorrer com o vigor que agora se insinua, é uma deterioração política grave em função dos desdobramentos da Lava-Jato, do qual o principal é a megadelação da Odebrecht. Não são, de forma alguma, favas contadas que a governabilidade de Temer está fadada a se dissolver, mas cresceram as chances de um cenário deste tipo. O affaire Geddel foi um aperitivo dos riscos associados ao clima sociopolítico tenso no qual o governo Temer tenta atravessar a corda bamba – ou “pinguela”, como prefere FHC.

A ansiedade compreensivelmente trazida por tantos problemas pode, neste ponto da travessia, precipitar erros fatais, como aguar ou sabotar a política econômica em curso. Como mencionado de início, a equipe econômica tem o que mostrar: dado o vendaval em sentido contrário, os fatos de que não haja pânico no mercado financeiro e de que não se ouça mais falar em dominância fiscal (até agora, pelo menos) é bastante coisa.

No front inflacionário, o Banco Central conseguiu a façanha de tornar factível o não rompimento do teto de tolerância de 6,5% este ano e o atingimento da meta de 4,5% em 2017. É claro que eventos imprevisíveis e a sorte vão, em última instância, decidir se estes dois marcos serão conquistados. Mas o simples fato de que sejam hoje considerados possíveis seria impensável há alguns meses.

Na questão da atividade, finalmente, é preciso entender que o desapontamento com o PIB é o problemão que Meirelles e sua equipe estão tentando resolver, e não a consequência da política econômica implementada. As dificuldades políticas do ajuste fiscal são um elemento fixo do cenário, sejam quais forem os atores na Fazenda e no Banco Central.

E há ainda o diagnóstico crescentemente sedimentado de que a retomada é difícil, lenta e dolorosa por se tratar de uma “recessão de balanço”, com processo de desalavancagem de famílias e empresas. Os juros podem e devem baixar (salvo solavancos gigantes externos ou internos), e vão ajudar um pouco, mas não há outra saída a não ser a paciência – desalavancagem toma tempo e o setor público no Brasil não tem solvência suficiente (nem de longe) para compensar a contração da demanda privada.

Temer, por sua vez, deveria trabalhar com alguns pressupostos e diretrizes que parecem cada vez mais claros. Em primeiro lugar, o seu provavelmente será um governo de transição, cujo maior mérito será entregar um país governável ao seu sucessor ou sucessora – qualquer coisa além disso é lucro. Se cumprir esse objetivo simples, o presidente provavelmente não sairá sob os aplausos das massas (é até capaz de ser bem impopular), mas tampouco fará feio nos livros de história.

Em segundo lugar, Temer não deveria ouvir o canto de sereia das críticas de desenvolvimentistas, heterodoxos, políticos nervosos e empresários impacientes à atual política econômica. Uma constatação que ajuda a recompor a sobriedade quando vier essa tentação é a de que, no fundo, aquelas críticas são o caldo de cultura do qual surgiu a desastrosa nova matriz econômica, que conduziu o País até o presente buraco.

Finalmente, o presidente deveria temperar sua malemolente habilidade política com certo grau de ousadia e agressividade, reagindo rápido ou até se antecipando em relação aos escândalos que vêm atingindo seus colaboradores mais próximos. Tudo isso, claro, na suposição de que o próprio Temer não seja atingido. Aí não há muito o que fazer. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/12/16, sexta-feira.