Venezuela, Argentina e o debate econômico no Brasil

Fernando Dantas

21 de fevereiro de 2014 | 21h08

A débâcle da Argentina e da Venezuela repercute no debate econômico brasileiro. Já há algumas décadas, o antagonismo entre economistas ortodoxos, de um lado, e heterodoxos e desenvolvimentistas, do outro, deu a tônica da discussão nacional. Argentina e Venezuela são dois países que, de forma explícita e até estridente, rejeitaram todas as recomendações do chamado “Consenso de Washington”, identificado com o pensamento liberal e ortodoxo, e embarcaram em políticas econômicas inteiramente diversas. Agora, com ambos os países em grandes dificuldades, em termos de inflação, câmbio e crescimento, os economistas ortodoxos podem se sentir vingados.

Mas não necessariamente, como assegura economista José Luis Oreiro, professor da UFRJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira. Para ele, Argentina e Venezuela são exemplos de países com políticas econômicas populistas, que, na América Latina, tanto podem vir da esquerda como da direita.

“É muito diferente do novo desenvolvimentismo que propomos”, diz Oreiro, que em junho vai lançar na Inglaterra um livro sobre o tema, escrito em conjunto com Luiz Carlos Bresser-Pereira e Nelson Marconi, outros expoentes do pensamento heterodoxo no Brasil.

Segundo Oreiro, a Argentina aproximava-se do novo desenvolvimentismo até 2005 quando, sob a batuta do então ministro das Finanças Roberto Lavagna, combinava uma política de câmbio competitivo com contas públicas razoavelmente em ordem.

Posteriormente, porém, a política econômica argentina enveredou pelo expansionismo fiscal e monetário, em que gastos públicos crescentes eram financiados pela emissão de moeda, com a consequente alta da inflação. Uma série de erros se acumulou, como a falsificação de índices de inflação e hostilidades crescentes contra as empresas privadas – primeiro as estrangeiras, e, na sequência, as nacionais.

Mas um dos erros mais graves e mais típicos do populismo latino-americano, na visão de Oreiro, foi a tentativa de controlar a inflação com a apreciação cambial, que compromete a situação externa dos países e agora os está empurrando na direção de crises de balanço de pagamentos.

Oreiro observa que mesmo a direita comete este tipo de erro populista, citando o caso do início do governo Pinochet no Chile, marcado por grave crise econômica. Ele poderia ter mencionado também, fora do espectro da esquerda típica da região, o “populismo cambial” do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, que terminou na desvalorização forçada de 1999.

“O novo desenvolvimentismo defende um Estado fiscalmente forte, em que pode haver déficits públicos para estimular a economia em tempos de recessão, mas em que existe equilíbrio ou quase equilíbrio intertemporalmente”, diz Oreiro. Ele defende um aumento da poupança pública brasileira, que é a receita do governo menos as despesas correntes (isto é, as despesas com investimento não reduzem a poupança pública).

O economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, e um dos mais duros críticos da atual política econômica brasileira e do pensamento heterodoxo, acha que os desenvolvimentistas brasileiras não podem se distanciar do que está acontecendo na Argentina.

“O Bresser renegou a Argentina só no ano passado, parece o Saramago que precisou chegar aos 80 anos para descobrir que Cuba era uma ditadura”, critica Schwartsman.

Ele tem uma leitura diferente da sequência de etapas na Argentina, embora concorde que no momento inicial do atual modelo, depois de vencida a fase mais turbulenta da crise de 2001 e 2002, havia uma “política fiscal razoável”.

Segundo Schwartsman, a política de manter o câmbio desvalorizado baseava-se em juros reais muito abaixo do nível necessário para controlar a inflação, razão pela qual a alta dos preços se acelerou. A partir deste fato, o governo argentino começou um festival de subsídios para tentar conter a inflação pela via administrativa, e foram esses subsídios que iniciaram o comprometimento da política fiscal.

“Primeiro eles estragaram as coisas em termos de inflação, depois em termos fiscais e muito depois em termos cambiais – a tentativa de segurar a inflação com câmbio só ocorreu lá na frente”, ele resume.

Seja como for, as agruras venezuelanas e argentinas estão formando um consenso entre as duas principais correntes de pensamento econômico no Brasil contra o populismo, seja monetário, fiscal ou cambial. O debate no Brasil não ficará indiferente ao que ocorre nesses dois países do Mercosul.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado em 19/2, 4ª feira, na AE-News/Broadcast

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