Ventania boa, mas até quando?

Cenário externo ajuda a derrubar juros no Brasil e valoriza o real no momento, mas é bom não confiar demais.

Fernando Dantas

06 de junho de 2019 | 13h46

A forte queda recente dos juros futuros, especialmente longos, no Brasil (hoje estão voltando um pouco) pode ter alguma conexão com a sensação do mercado de que melhoraram as chances de aprovação da reforma da Previdência, com uma certa trégua das trapalhadas políticas em série do governo de Jair Bolsonaro. Mas não há dúvida também de que está pesando um forte fator externo, que é uma consolidação mais aguda das expectativas de que o Federal Reserve (Fed), BC norte-americano, venha a fazer cortes dos Fed Funds, a taxa básica, ainda este ano.

O JP Morgan, em relatório de 31/5, prevê agora dois cortes de 0,25 ponto percentual dos Fed Funds em setembro e dezembro (hoje a taxa básica está no intervalo 2,25%-2,5%). Para o Credit Suisse, o primeiro corte pode ocorrer em julho. O Barclays prevê corte de 0,75 ponto porcentual até o fim do ano.

“Está embutida uma chance de 60% de corte dos Fed Funds na estrutura a termo dos juros nos Estados Unidos”, comenta Bráulio Borges, economista da LCA, sobre a conjuntura de hoje.

A escalada da guerra comercial, que ameaça prejudicar ainda mais a economia americana – em que os mais alarmados já enxergam risco de recessão, apesar do mercado de trabalho ainda pujante –, é vista como uma das principais razões que vai forçar o relutante Fed a cortar os juros. A última projeção do “gráfico de pontos” dos diretores do Fed, de março, ainda apontava para um próximo movimento de alta dos Fed Funds, em 2020.

Mas declarações de hoje de Jerome Powell, chairman do Fed, foram interpretadas como deixando a porta relativamente aberta para um corte caso os efeitos das tensões comerciais sobre a economia norte-americana se agravem.

A escalada da guerra comercial, como nota Borges, inclui a recente ação unilateral em tarifas dos Estados Unidos contra a China (com a em retaliação anunciada pelo país asiático), a chamada “guerra fria tecnológica” envolvendo o governo americano e a empresa chinesa Huawey e, agora, o anúncio de Trump de tarifas contra o México. É mais do que os mercados esperavam que viesse ocorrer em momentos de expectativas mais otimistas no início do ano.

Para o Brasil, até agora o combo mais recente “guerra comercial-preocupação com a economia americana-queda dos juros nos EUA” tem sido benéfico, porque está se traduzindo em liquidez e queda dos juros brasileiros, e não em aversão a risco – que aumenta o risco Brasil e impacta os juros longos.

Se ficar assim, reforça os argumentos de analistas como Borges, que acham que o Banco Central já deveria ter cortado a Selic. O economista nota que Powell, ao implicitamente não descartar um corte dos Fed Funds – na interpretação da sua fala de hoje por boa parte do mercado –, está mostrando uma flexibilidade diante da evolução do cenário que pode estar faltando ao BC brasileiro.

A grande questão é se o “combo” mencionado acima vai continuar produzindo ventos benéficos ao Brasil ou se, em algum momento, pode incluir uma forte onda de aversão a risco, o que faria o câmbio e os juros subirem aqui, via risco, e seria o tipo de situação na qual o BC não gostaria de se ver caso estivesse num ciclo de redução da Selic.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/3/19, terça-feira