Violência política: Bolsonaro é o responsável

Assassinato de dirigente petista por militante bolsonarista em Foz do Iguaçu é consequência da estratégia do presidente de incessante acirramento dos ânimos políticos e de culto às armas de fogo.

Fernando Dantas

11 de julho de 2022 | 19h00

O assassinato na noite de sábado (9/7) em Foz do Iguaçu do dirigente petista Marcelo Arruda pelo militante bolsonarista Jorge Guaranho é um sinal muito preocupante do risco de violência política no processo eleitoral deste ano.

A responsabilidade pelo clima de beligerância física dos seus apoiadores recai inteiramente no presidente da República e no seu séquito mais próximo, que desde o início do governo vêm  acirrando os ânimos da militância.

Bolsonaro é ferrenho defensor do porte pessoal de armas e já disse várias vezes que essa é a condição para que a população se defenda de ameaças à sua liberdade.

O problema é como bolsonaristas fanáticos, atiçados incessantemente pela torrente de fake news promovida pelo governo e seus aliados nas redes sociais, interpreta esse chamado para que defendam a sua “liberdade” com armas em punho.

Os adversários políticos, e o PT em particular, são pintados por Bolsonaro como vilões de história em quadrinhos e adeptos do comunismo, regime que de fato destruiu e destrói a liberdade nos países em que vigora.

Daí a um militante bolsonarista exaltado enxergar um petista que comemora seu aniversário como um “inimigo da liberdade” que deve ser combatido com armas de fogo é apenas um passo.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Ebape/FGV, aborda o assassinato de Foz de Iguaçu no contexto mais amplo da hostilidade contínua de Bolsonaro às instituições democráticas e à Constituição desde o início do seu governo.

Segundo Amorim Neto, “a violência política caracteriza a ruptura final da ordem democrática”. No caso brasileiro, ela vem como consequência natural da degradação da democracia diante do ataque constante às instituições promovido pelo bolsonarismo.

O pesquisador menciona episódios como o desfile de blindados em Brasília em 10 de agosto do ano passado no dia de análise da PEC (derrotada) do voto impresso, ou os ataques ao Supremo Tribunal Federal realizados e orquestrados pelo presidente no último 7 de setembro, dia da Independência.

Amorim Neto recorda como Bolsonaro “atacou com linguagem chula, de botequim, ministros do STF”.

“Desde janeiro de 2019, o Palácio do Planalto tem a estratégia de criar um ambiente absolutamente tensionado no País, mas agora, diante da má situação eleitoral, isso vem sendo maximizado”, acrescenta o cientista político.

Para ele, o gravíssimo risco de violência política é ampliado pelo fato de que setores muito importantes da elite e da opinião públicas se tornaram relativamente indiferentes ao clima crescentemente conflagrado.

Amorim Neto considera que tratar de forma equivalente o risco que Bolsonaro e Lula trariam à democracia é uma das formas de “naturalizar” o papel do atual presidente em fomentar as condições que levam à violência política.

Segundo o pesquisador, “Lula nunca ameaçou as instituições como Bolsonaro, e quem não reconhece o papel do atual presidente em degradar o ambiente político está contribuindo indiretamente para o ambiente de confrontação e violência”.

A coluna lembra que Lula errou recentemente ao agradecer em discurso ao ex-vereador Manoel Eduardo Marinho, de Diadema, que ficou preso durante seis meses por tentativa de homicídio qualificado ao empurrar o empresário Carlos Alberto Bettoni em 2018 (que bateu com a cabeça no para-choque de um caminhão). Bettoni insultara o então senador petista Lindbergh Faria em frente ao Instituto Lula, em São Paulo.

Foi também nesse último sábado que Lula disse, em discurso em Diadema, que “esse companheiro Maninho, por me defender, ele ficou preso sete meses […], porque resolveu não permitir que um cara ficasse me xingando na porta do instituto [Lula]”.

Entretanto, mesmo tendo sido um erro grave, a fala de Lula não se constitui nem de longe em peça de um deliberado e permanente discurso de incitamento ao ódio e ao uso de armas para se defender contra supostas ameaças políticas, como é o caso do bolsonarismo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/7/2022, segunda-feira.