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Virada à direita?

Derrota de PT e da esquerda nas eleições municipais não se traduz em apoio popular à política econômica liberal.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2016 | 19h12

A pesquisa de popularidade presidencial divulgada hoje (19/10/16) pela CNT/MDA não trouxe boas notícias para o presidente Michel Temer. Um número ligeiramente maior de pessoas, 28,1%, considera o governo Temer pior que o de Dilma Rousseff do que vice-versa (26%). A desaprovação do desempenho pessoal do presidente saltou de 40,4% para 51,4%, e a aprovação caiu de 33,8% para 31,7%. A proporção de brasileiros que considera o governo Temer bom ou ótimo subiu 3,3 pontos porcentuais (pp), mas a dos que consideram ruim ou péssimo aumentou 8,7 pp.

É interessante contrastar esses resultados com o pano de fundo dos recentes resultados eleitorais, que aparentemente indicam uma guinada à direita da população brasileira. Se isto é verdade, por que a orientação mais liberal do governo Temer, especialmente na política econômica, não fez com que o presidente conseguisse ainda sair da armadilha da popularidade muito baixa que torpedeou o governo da sua antecessora?

Uma grande parte da resposta está obviamente em que, apesar do otimismo do mercado e dos investidores, refletidos na alta da bolsa, na valorização do real e na queda do juro, nenhum alívio chegou ainda à economia real, ao consumo, ao salário e à renda, que continuam no chão e emitindo sinais ruins, como os da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de agosto, divulgada hoje.

De qualquer forma, a propalada virada à direita do eleitorado é mais complexa e menos certa do que pode parecer à primeira vista, de acordo com os cientistas políticos Octavio de Amorim Neto e Celso Rocha de Barros, ouvidos pela coluna (antes da divulgação da pesquisa CNT/MDA).

Amorim vê nas mudanças recentes de posição do eleitorado um processo natural de ciclos entre socialdemocracia e “liberal democracia” típico dos países desenvolvidos na América do Norte e Europa desde o final da segunda guerra mundial. Ele nota que, ironicamente, neste momento o ciclo habitual está sendo perturbado no mundo rico pela ascensão do populismo de direita, aparente em fenômenos como o Brexit e a candidatura Trump. A social democracia está com dificuldade em se beneficiar da insatisfação do eleitorado com os programas de austeridade.

De qualquer forma, em boa parte da América Latina o ciclo tradicional estaria vigente, com governos relativamente mais à direita se beneficiando da exaustão do ciclo de esquerda que no Brasil teve como principais atores Lula e o PT.

A grande questão, porém, para o cientista político, é o formato que terá um possível bloco de centro-direita que venha a dominar o cenário nos próximos anos. Amorim nota que as novas forças à direita na política brasileira são bem mais conservadoras, particularmente em temas de moral e comportamento, do que foram o PSDB e Fernando Henrique de 1994 a 2002.

“Naquela época, apesar de os tucanos ficarem com a pecha de neoliberais, vimos aumento da carga tributária e das políticas sociais, o que é típico da socialdemocracia”, aponta o cientista político. Ele acrescenta que a possibilidade de diálogo entre a esquerda e o governo da era FHC era bem maior do que com novas forças de direita que despontam no cenário nacional, como Geraldo Alckmin, João Dória, Marcelo Crivella e, no extremo, a família Bolsonaro.

Em termos do PSDB, Amorim lembra que fundadores como FHC, Mário Covas e José Serra eram bem menos conservadores do que os líderes com mais força atualmente, Alckmin e Aécio Neves. Estes dois, na sua opinião, terão menos fricção com a agenda dos evangélicos, que ganha força com o aparente sucesso de políticos como Crivella.

Barros, por sua vez, encara com certo ceticismo a ideia de que houve uma guinada à direita do eleitorado. Ele considera que a derrota fragorosa do PT nas eleições municipais, e o bom desempenho de PSDB e PMDB, pode ser mais um pêndulo puramente de siglas do que um movimento carregado de significado ideológico. Assim, o PT se queimou por causas dos escândalos de corrupção e da crise econômica, e seus adversários tradicionais cresceram no espaço desocupado, sem que isto necessariamente tenha significado mudanças relevantes em posições tipicamente ideológicas.

O cientista político acrescenta que uma virada ideológica teria de ser comprovada por pesquisas que aferissem a opinião do eleitorado sobre temas como privatização, abertura da economia ou casamento gay. Ele diz não perceber nenhum sinal claro de que tenha havido um maciço movimento da sociedade, em relação a questões deste tipo, numa direção mais à direita. Assim, ele vê os resultados da eleição “mais como rejeição ao PT do que como mudança de opinião das pessoas (sobre temas ideológicos)”.

Barros nota que Crivella está sendo levado a moderar suas opiniões sobre questões morais, religiosas e de comportamento no segundo turno, enquanto a grande votação de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição no Rio indica mais o fortalecimento de um nicho de extrema-direita do que a formação de uma plataforma que tenha chances de ser majoritária. Já em São Paulo, a eleição de Dória também veio na maré do antipetismo e o candidato se beneficiou de subir nas pesquisas mais próximo à eleição, tendo sido menos atacado do que os seus principais rivais ao longo da maior parte da campanha.

Tanto a visão de Amorim como a de Barros indicam que a derrocada da esquerda nas eleições municipais não se traduzirá necessariamente em maior aceitação pelo eleitorado do programa econômico liberal de Temer. A “virada à direita” pode estar acontecendo mais pelo conservadorismo do que pelo liberalismo, ou pode nem mesmo existir na dimensão a ela atribuída por muitos analistas. Dessa forma, o presidente deveria ficar bem consciente de que não colherá palmas na dura jornada do seu mandato se não persistir até o ponto em que a política econômica sensata se traduza em melhoras materiais efetivas para a maioria dos brasileiros, o que pode muito bem não acontecer antes de, pelo menos, 2018. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/10/16, quarta-feira.

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