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Virada no radar

Mercado já discute quando irá acontecer e qual será o ritmo da retomada da economia brasileira.

Fernando Dantas

29 Junho 2016 | 10h53

Seja ou não justificada, a onda inicial de otimismo dos analistas em relação ao governo Temer ainda não se arrefeceu. É verdade que o comportamento do mercado financeiro, influenciado também por fatores internacionais, é ambíguo: a bolsa não vai bem, mas dólar e juros têm mostrado comportamento razoável, e no momento digerem os efeitos do Brexit. No geral, se sobressaem no mercado as análises esperançosas, e o momento de virada da economia, com o fim da terrível recessão, já se aproxima do centro do radar.

Bráulio Borges, economista -chefe da LCA Consultores, chama a atenção para o fato de que o Indicador Antecedente Composto da Economia (IACE), do Ibre/FGV e do Conference Board, registrou em maio a quarta alta consecutiva, de 2,5%. Adicionalmente, o Indicador Coincidente Composto de Economia (ICCE) registrou estabilidade depois de várias quedas. O IACE tem como componentes dados do mercado financeiro, índices de confiança, de produção física e de comércio exterior.

Outro a identificar um ponto próximo de virada é Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP. Ele nota que os índices de confiança do consumidor, da indústria e dos serviços têm apresentando melhoras (mas não o da construção civil). Mesmo levando em conta que o avanço da confiança ainda afeta mais as expectativas do que a situação presente, o que traz alguma dúvida, este padrão também é típico de momentos que antecedem a virada. Neste caso, as expectativas mais positivas podem gerar o otimismo que acaba por melhorar a situação presente do consumo e dos investimentos.

Rocha menciona, como possíveis razões para a mudança, o avanço de governabilidade do governo Temer, em relação à Dilma, e a agenda pró-mercado do presidente em exercício. “O novo governo está falando uma linguagem mais próxima do setor privado, de desregulamentar, permitir entrada de capital estrangeiro e mudar regras no setor de petróleo e gás”, comenta o gestor.

O economista prevê mais uma queda do PIB no segundo trimestre, de 0,3% a 0,4% (na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior), mas que é seguida de altas de 0,2% e 0,5%, respectivamente, no terceiro e quarto trimestres. Pelas projeções da JGP, o PIB cairia 3% em 2016. Segundo Rocha, a grande incógnita é a velocidade da prevista retomada, e a dificuldade reside em boa parte no fato de que é muito difícil antecipar a trajetória de recuperação da confiança.

Ele projeta crescimento de 1,5% em 2017, e, supondo que Temer tenha um razoável grau de sucesso em tocar a agenda de ajuste fiscal, acha possível que haja um “efeito mola” em 2018, que poderia levar o crescimento até para 4%, bem acima do potencial de 2% a 2,5% (na sua estimativa). O “efeito mola” é a recuperação intensa e veloz que pode se seguir a quedas muito agudas do PIB, como a atual. Todo o cenário de Rocha depende, evidentemente, do sucesso político de Temer, um fator que o economista frisa bastante, e sobre o qual mantém uma atitude não tão entusiástica quanto a dos mais otimistas do mercado.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, dá grande ênfase à mudança do cenário político na projetada virada da economia brasileira que, no seu cenário, consolida-se um pouco mais para o fim deste ano, mas desdobra-se num crescimento de 2% em 2017.

Vale recorre a exemplos de outros episódios em que mudanças fortes na política, rompendo impasses de governabilidade, ensejaram reviravoltas muito fortes na economia. No Brasil em 1992, ano do impeachment de Collor, houve quedas muito intensas da produção industrial, da ordem de 10% na comparação mensal interanual, que foram revertidas em novembro do mesmo ano para um ritmo de crescimento equivalente ao do recuo anterior. Já na Argentina, na crise de 2001 e 2002, com sucessivas quedas de presidente, uma reviravolta positiva muito forte ocorreu quando Roberto Lavagna tornou-se ministro da Economia em abril de 2002, com Eduardo Duhalde como presidente.

O economista-chefe da MB Associados, que prefere trabalhar com comparações interanuais, projeta quedas decrescentes do PIB brasileiro de, respectivamente, 4%, 2,9% e 0,9% nos segundo, terceiro e quarto trimestres de 2016 – neste último, ele acha possível que a projeção caminhe para ainda mais perto de zero. Em 2017, o PIB trimestral volta a ficar positivo na comparação interanual, e fecha o último trimestre do próximo ano com expansão de 3,3%. “E não descarto surpresas positivas em relação a este cenário”, acrescenta Vale.

Para 2018, porém, ele é mais cauteloso, por causa do próprio peso que atribui à situação política. O crescimento do último ano do atual mandato presidencial dependerá muito do perfil político – e das atitudes em relação à atual agenda pró-mercado – dos favoritos na próxima eleição presidencial. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 27/6/16, segunda-feira.