Visão otimista da Bolsa brasileira

Fernando Dantas

14 de maio de 2014 | 17h09

Ainda estão bem vívidas na memória de investidores e de todos que acompanham a economia brasileira as suas capas da The Economist, separadas por poucos anos: na primeira, o Cristo Redentor decola, simbolizando a arrancada do Brasil; na segunda, o Cristo embica para baixo, representando a série de problemas que atingiram o País mais recentemente.

A revista britânica, portanto, seguiu a manada, exagerando a fase boa e, quem sabe, também a má. Já o analista Michael Shaoul, da Marketfield Asset Management LLC, em interessante relatório recente, começa por lembrar o leitor de que, há pouco mais de três anos, tornou-se negativo em relação ao Brasil pela primeira vez em quase dez anos. Assim, ele apresenta as suas credenciais de alguém capaz de pensar e agir fora da manada para transmitir a mensagem de que o “bear market” (mercado baixista) nas ações brasileiras pode ter terminado.

“Nós acreditamos crescentemente que o mercado acionário do Brasil chegou finalmente ao fundo de um longo e brutal ajuste, que eliminou quase 60% do valor do Ibovespa em dólares durante três anos”, escreveu Shaoul.

O analista está longe de ser um entusiasta da atual situação econômica do Brasil. Sua leitura baseia-se muito mais no fato de que as muitas deficiências já teriam sido precificadas, e que pode haver surpresas positivas nas commodities.

Um primeiro ponto no raciocínio de Shaoul é que a cegueira do mercado em relação às dificuldades do Brasil, na fase de “queridinho” entre 2009 e 2011, é coisa do passado.

“Os problemas do Brasil agora são bem compreendidos e amplamente discutidos. Isto não os torna em nada menos reais mas pelo menos sugere que as decisões do mercado estão sendo tomadas a partir de uma posição informada, em vez da esperança cega que insuflou o entusiasmo no passado”.

Não há muita novidade na visão do analista sobre a deterioração brasileira a partir de 2011: perda de independência do Banco Central, populismo intervencionista de Dilma, piora fiscal e do saldo em transações correntes.

Por outro lado, ele pondera que as perdas no Brasil foram muito mais agudas do que as de outros emergentes que pioraram bem mais, como a Índia, mas cujos mercados caíram muito menos.

Shaoul nota que o sub-índice MSCI de energia do mercado acionário brasileiro perdeu 83% do seu valor nominal entre o pico de 2008 e o início de 2014 (com o emblemático colapso do império do empresário Eike Batista). Ele acrescenta que uma queda de 80% é suficiente para corrigir mesmo os mais absurdos excessos, incluindo a bolha da Nasdaq em 2000.

Fora do setor de energia, continua o analista, as ações ligadas a commodities estão cotadas até abaixo de 2009, ano de pico da crise global, por apreensões com a China.

Shaoul acha que há hoje uma superestimação dos riscos na China, e uma subestimação da possibilidade de uma recuperação sincronizada dos setores residencial e industrial nos Estados Unidos, Japão e Europa, o que colocaria pressão nas commodities ligadas à indústria.

“Dessa forma, podemos imaginar um cenário no qual muito das questões domésticas do Brasil ainda precisem ser solucionadas com ajustes dolorosos, ao mesmo tempo em que as partes da economia relacionadas às commodities e voltadas às exportações tenham um desempenho algo melhor do que as expectativas deprimidas de hoje”.

O relatório traz ainda análises sobre possíveis divergências entre os índices muitos ruins de confiança do consumidor brasileiro e o início de recuperação do mercado acionário, e compara o mercado acionário do Brasil com o bear-market americano de 2000 a 2003.

Shaoul também vê possibilidade de que o déficit em conta corrente tenha se estabilizado em torno do atual nível de 3,6%, o que poderia até melhorar num cenário mais positivo de commodities. E ele observa que a negatividade em relação ao Brasil não reduziu o investimento estrangeiro direto, que é US$ 16,5 bilhões inferior ao déficit em conta corrente (no acumulado de ambos em 12 meses) – um volume “grande, mas administrável”.

Na conclusão, Shaoul admite que não pode ter certeza que o bear-market de três anos no Brasil encerrou-se em março, mas vê uma chance razoável de que isto tenha ocorrido “nas partes básicas do mercado relacionadas às commodities”. Segundo o analista, “desdobramentos na economia global podem estar próximos de vir resgatar os exportadores brasileiros, num eco da recuperação de 2003 e 2004”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada no dia 5/5/14 na AE-News/Broadcast

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