Visão turva e preocupações no front do emprego

Pnad Contínua de novembro mostra pontos de preocupação na retomada do mercado de trabalho, e não "conversa" com o Caged de dezembro (e de 2020 fechado), que desenha um quadro mais otimista no emprego formal.

Fernando Dantas

29 de janeiro de 2021 | 11h08

Os indicadores do mercado de trabalho divulgados hoje (28/1, quinta) mantêm um cenário enevoado do que ocorreu no final do ano passado. A Pnad Contínua (PnadC) de novembro, isto é, do trimestre até novembro, e o Caged de dezembro e do ano fechado de 2020 prosseguem no padrão recente de conversar mal entre si.

A Pnad C revelou pontos preocupantes, enquanto o Caged, que se refere apenas aos empregos de carteira assinada, delineia um quadro mais otimista.

“Atualmente não se vê nenhuma correspondência entre as duas pesquisas”, diz o economista Daniel Duque, do Ibre-FGV, especializado em mercado de trabalho.

Começando pela Pnad C, os dados mensalizados pelo Ibre, com base em metodologia do Banco Central, revelam que a taxa de crescimento da população ocupada (PO) em novembro, em relação a outubro, desacelerou-se para 0,4%, de 1,4% em outubro ante setembro.

Duque nota que o fator que freou a expansão da PO em novembro foi o trabalho informal, que teve um crescimento de apenas 0,2% em relação ao outubro, depois de se expandir 6,7% em outubro ante setembro.

Uma possível hipótese, para o pesquisador, é que, com a redução do auxílio emergencial pela metade a partir de setembro, um grande contingente, superior a 2 milhões, voltou às ocupações informais em outubro. Mas esse abarrotamento do mercado de trabalho pode ter tirado as condições de a PO informal seguir crescendo nos meses imediatamente subsequentes. O mercado de trabalho teve que se ajustar.

Em relação ao emprego formal, desponta a discrepância entre a Pnad C e o Caged (a primeira inclui categorias além da carteira assinada, mas em tese ambas as pesquisas miram universos com muita superposição quando investigam o trabalho formal).

Em outubro, por exemplo, o Caged registrou uma abertura líquida de quase 400 mil empregos com carteira assinada, enquanto o emprego formal na Pnad C mensalizada recuava 0,9% em relação ao mês anterior.

Um detalhe relevante apontado por Duque sobre o resultado do Caged em 2020 é que, das 142.690 vagas com carteira assinada que foram criadas liquidamente no ano passado, aproximadamente a metade são postos de trabalho intermitentes.

“Foi um ano de muita volatilidade e incerteza e é natural que o empregador procure formas de trabalho mais flexíveis”, diz o pesquisador.

Em relatório divulgado pelo Credit Suisse sobre os dados do mercado de trabalho de hoje, assinado por Solange Srour, economista-chefe, e Lucas Vilela, assinala-se que “de maneira geral, a estatísticas do mercado de trabalho em novembro foram negativas”.

A análise chama a atenção para a aceleração da contração da massa salarial na comparação entre mesmos períodos de 2020 e 2019. Assim, em novembro (na verdade, trimestre até novembro), a massa salarial se contraiu 5,9% ante o mesmo período de 2019.

No mesmo tipo de comparação, a retração foi 4,9% em setembro e de 5,3% em outubro – em ambos os casos, de 2020, claro.

O Credit Suisse observa que uma contração maior da massa salarial e o crescimento gradual da população ocupada em setores importantes, como serviços, sugerem uma recuperação mais gradual do mercado de trabalho – o que também contrasta, segundo o relatório, com os números do Caged.

Para o início de 2021, Duque, do Ibre, vê fatores negativos incidindo sobre o mercado de trabalho, com dois destaques.

O primeiro é o fim do auxílio emergencial. Ele nota que o emprego, especialmente formal, cresceu mais em cidades mais beneficiadas pelo auxílio, especialmente no Norte e Nordeste.

“Houve um choque gigantesco de consumo em diversos lugares, e isso tem efeito positivo no emprego”.

O outro fator é a segunda onda da Covid-19, que deve trazer novas restrições à circulação e funcionamento de estabelecimentos, como restaurantes e bares.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/1/2021, quinta-feira.