Visões pessimistas: Rogoff, Wolf, etc.

Fernando Dantas

24 de fevereiro de 2010 | 16h48

Recebo um email do amigo Geraldo Samor, consultor, em resposta a um link com o último post. Geraldo me sugere – e eu acato – um post sobre recentes declarações (em matéria da Bloomberg) de Ken Rogoff , um dos economistas mais respeitados da atualidade, prevendo que, em algum momento nos próximos dez anos, a economia chinesa vai passar por uma crise que jogará seu crescimento para 2% ao ano – para quem vem há 30 anos num ritmo próximo a 10%, e no momento trafega a 12%, ir para 2% é quase o equivalente de um carro a 120 quilômetros por hora chocar-se contra um muro de concreto.

Não é à toa que Rogoff usa o adjetivo “horrível” para descrever a previsão e suas consequências. Célebre por ter escrito recentemente com Carmen Reinhart um livro que é uma espécie de enciclopédia geral das crises financeiras e cambiais, varrendo um período de 800 anos que chega aos dias de hoje, o economista americano é, sem dúvida, uma autoridade em bolhas. E o que ele vê na China hoje é uma “bolha alimentada a crédito”.

O livro, aliás, tem o nome muito bem sacado de “Desta vez é diferente/Oito Séculos de Folia Financeira” – a primeira frase é uma espécie de mantra que se repete com pequenas variações na contagem regressiva das grandes crises econômico-financeiras ao longo da história, invariavelmente entoado por quem está ganhando dinheiro com a bolha da vez.

Rogoff acha que o “desta vez é diferente” atual é a China, e ironiza os analistas que dizem que “não haverá crise financeira no país por causa do planejamento central, da alta taxa de poupança, das grandes reservas de mão de obra e blá-blá-blá”.

O estouro na China, alerta Rogoff, seria – acho que ele preferiria “será” – péssimo para a Ásia e desastroso para os países latino-americano exportadores de commodities – quer dizer, para nós. Mas ele não prevê uma crise chinesa duradoura. Depois de botar boa parte do mundo de pernas para o ar com a sua quase parada brusca, o país asiático volta a um ritmo forte de crescimento em aproximadamente um ano meio.

Vindo na sequência do post sobre a visão otimista de Jim O’Neill, este aqui é um contraponto importante. Há muitas vozes de peso bem pessimistas com o andar da carruagem global. Num post mais embaixo, citei o Niall Ferguson, com sua visão de uma crise de dívida soberana se alastrando pelo mundo rico, até atingir a economia central dos Estados Unidos. Hoje, no Financial Times eletrônico (e com tradução no Valor Econômico), Martin Wolf – que atacou Ferguson por aquela análise, mas também é pessimista por outras vias – argumenta que a contrapartida da enorme expansão fiscal e monetária nos países ricos é um setor privado que está apertando fortemente os cintos. Em outras palavras, a ação dos governos evitou uma parada total mas não religou os motores de crédito e consumo do mundo avançado. A saída – que ele acha improvável – seria um grande aumento do investimento nas moribundas economias ricas e de consumo nos países emergentes – onde impera a propensão a poupar, por causa da China, diante de cuja massa crítica contam pouco os “natural born consumers”, como nós brasileiros.

Em suma, o partido pessimista tem uma equipe da pesada, com argumentos que não podem ser descartados levianamente. Se há talvez uma lição a ser tirada por nós brasileiros, eu acho que está na linha do comentário no post abaixo do economista Mansueto de Almeida, do Ipea: a hora não é de euforia e de triunfalismo, mas sim de baixar a bola, jogar com cautela, preservar os ganhos e partir com muita energia para enfrentar nossos inúmeros defeitos estruturais. Mas vai dizer isso para um país e um governo embevecidos pelo crescimento de 6%, 7% e pelos aplausos da galera global…

Tudo o que sabemos sobre:

BrasilDebatesMundo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.