Vitória indica amadurecimento, mas…

Bolsonaro deu provas de se render ao realismo político na sua vitória na eleição das presidências das casas do Congresso. A situação do presidente permanece crítica, mas ele ganha mais uma oportunidade. Vai desperdiçá-la, como de hábito no seu mandato? A coluna foi escrita hoje antes dos resultados das eleições no Congresso.

Fernando Dantas

01 de fevereiro de 2021 | 23h25

Acredita-se que os candidatos preferidos de Jair Bolsonaro são os favoritos para vencer as eleições na Câmara e no Senado hoje.

Se isso acontecer, o presidente terá dado sinais de que amadureceu em termos políticos.

É importante ressalvar que a afirmação acima não significa, de forma alguma, avalizar o desempenho de Bolsonaro. Sua conduta em termos de ameaças à democracia e da gestão propositalmente desastrada da mortífera pandemia da Covid-19 permanecem abomináveis. Para ficar apenas em poucos temas.

O caso para pedir impeachment do presidente continua válido como nunca.

Ainda assim, a prevista vitória de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara e de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado indicam que Bolsonaro entendeu a inevitabilidade de operar nos cânones do presidencialismo de coalizão para governar o Brasil.

O presidente aliou-se aos operadores profissionais de política do Centrão, e estes estão entregando uma prevista vitória que, caso confirmada, fortalece a governabilidade do Executivo.

Ainda assim, a situação de Bolsonaro permanece delicadíssima. O ano começou com queda forte na sua popularidade e a volta de conversas sobre impeachment.

A combinação da violenta segunda onda da pandemia com problemas na vacinação (não só no Brasil, mas nos países em geral, com exceção de uma pequena minoria) traz más notícias sanitárias, sociais e econômicas.

Muito mais gente vai morrer de Covid-19, a volta de alguma medida de isolamento social vai frear a economia e travar a retomada do mercado de trabalho, e as famílias de trabalhadores informais vão sofrer e sentir falta do auxílio emergencial.

Isso realimenta a perda de encanto de Bolsonaro junto aos mais pobres. Por outro lado, ao se aliar de corpo e alma à velha política do Centrão, o presidente perdeu o pouco de atratividade que porventura lhe restasse junto à classe média “lavajatista”, já abalada pela saída de Sergio Moro do governo.

Se a queda da popularidade de Bolsonaro se aprofundar muito nos próximos meses, o presidente pode entrar num território crítico em que a possibilidade de impeachment crescerá, sangrando seu capital político.

Nesse caso, não haverá domínio do Centrão pelo Congresso que salve sua pele. Pelo contrário, não se deve esperar dos profissionais da política que permaneçam numa canoa furada que muito provavelmente irá para o fundo do rio.

Mas todo esse cenário de derrocada do presidente está longe de ser uma certeza, ou mesmo uma forte probabilidade.

Se seus aliados forem confirmados na presidência da Câmara e do Senado, Bolsonaro ganha instrumentos para reagir.

Se um mínimo de sensatez prevalecer, equipe econômica e Congresso podem elaborar uma “terceira via” entre o que apavora o mercado (um novo auxílio emergencial) e o que o mercado aprova (nada no lugar do programa que terminou em janeiro).

Teria que ser alguma forma extra e temporária de ajuda aos informais, acoplada a uma conquista vistosa no plano do ajuste fiscal estrutural. A aprovação de uma PEC emergencial robusta é a melhor opção.

A PEC permitiria a sobrevivência do teto até 2022, ainda que alguma gambiarra jurídica tenha que ser feita apenas para abrigar o substituto temporário do auxílio emergencial.

Se um arranjo desse tipo for alcançado, há potenciais fatores positivos que poderiam ajudar Bolsonaro a sobreviver a um 2021 extremamente difícil.

Como já mencionado, a dificuldade de vacinar toda a população não é uma exclusividade brasileira. Para o “bloco intermediário” de países, o jogo está apenas começando.

Nessa seara, outro sinal recente de possível amadurecimento de Bolsonaro foram os gestos reverentes feitos à China, sempre ferozmente atacada pela chamada ala ideológica do seu governo, incluindo o chanceler Ernesto Araújo e seu filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo.

Com um pouco de pragmatismo e investindo no potencial das relações com China e Índia pela convivência no grupo dos BRICS, talvez seja possível acelerar em alguma medida a importação de vacinas e de seu componente básico dos dois colossos asiáticos.

A capacidade de realizar a etapa final de fabricação da vacina no Brasil pela Fiocruz e pelo Butantan também deve ajudar (as duas instituições nacionais também fabricarão inteiramente a vacina no Brasil, mas, no caso do Butantan, só em 2022). E o Brasil tem uma tradição de vacinar rápida e maciçamente – desde que haja o produto, claro.

Em resumo, na corrida da vacinação que se inicia, não é impossível que o Brasil venha a exibir resultados razoáveis um pouco mais adiante, se o governo parar de errar maniacamente, como vem fazendo de forma deliberada na gestão da pandemia.

Assim como problemas na vacinação, desaceleração econômica, desemprego, agravamento da situação social e queda de popularidade se retroalimentam no atual momento, um movimento oposto poderia ocorrer em mais alguns meses se algum daqueles fatores, como por exemplo a vacina, mudasse decididamente de direção.

O domínio no Congresso também pode dar a Bolsonaro o poder de avançar na sua agenda de valores e costumes. Novamente, isso reforçaria sua governabilidade se o presidente demonstrar alguma capacidade de negociação.

Se insistir em posições extremas, vai agradar apenas aos seus apoiadores fanáticos, que gritam muito, mas não são tão numerosos em termos eleitorais. Se buscar pautas conservadoras, mas não incendiárias, pode solidificar e ampliar o seu já forte apoio junto a fatias do eleitorado, como os evangélicos.

Em resumo, caso a vitória de seus candidatos à presidência das Casas do Congresso se confirme hoje, Bolsonaro ganha algum fôlego para seu projeto político, mas ainda permanecerá numa situação frágil.

O próprio processo político pelo qual o presidente pode vir a ser vitorioso hoje, se for, é um sinal de que ele amadureceu um mínimo, a ponto de não necessariamente jogar fora todas as oportunidades que surgirem.

O problema é que Bolsonaro tem um tal histórico de destempero e irracionalidade que é recomendável nunca comprar a hipótese de que tomou um mínimo de juízo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/2/2021, segunda-feira.