Volpon e a qualidade da retomada

Economista-chefe do UBS Brasil e ex-diretor do BC está relativamente otimista em relação à consistência da recuperação da economia brasileira, mas prevê crescimento do PIB de apenas 1,5% em 2020 por causa de piora projetada no cenário internacional.

Fernando Dantas

08 de outubro de 2019 | 10h53

Tony Volpon, economista-chefe do UBS Brasil (e colunista do Broadcast) combina duas afirmações que, à primeira vista, podem parecer contraditórias: ele está relativamente otimista com a economia brasileira, mas o PIB em 2020 deve crescer apenas 1,5%.

A contradição é apenas aparente, porque essa projeção de crescimento em 2020 abaixo da previsão de mercado (a mediana do Focus é de 2%) não deriva de problemas da economia brasileira, mas da internacional. Volpon, ex-diretor do Banco Central, explica que o cenário do UBS para o mundo é mais pessimista que a visão média dos analistas.

Em relação ao Brasil, o economista identifica uma mudança de modelo econômico em curso: o setor privado, que estava “viciado” no apoio do Estado, viu-se de uma hora para outra às voltas com a tarefa de crescer por si mesmo.

“O setor privado entrou em pânico, mas um processo bastante gradual de ‘crowding in’ já está ocorrendo”, diz Volpon, referindo-se ao financiamento privado em substituição ao público.

Ele apresenta de forma bem sintética a sua visão sobre a economia brasileira desde a década passada, que pode ser encontrada, de maneira mais detalhada, no seu livro recém-lançado “Pragmatismo com Coação: petismo e economia em um mundo de crises”.

Toda a análise é perpassada pelo forte papel da China nas transformações globais das duas últimas décadas, que no livro ele desenvolve particularmente para o caso dos Estados Unidos e do Brasil.

Em relação ao Brasil especificamente, Volpon vê um ciclo de crescimento turbinado pela alta de commodities de 2004 a 2010, e um novo ciclo mais lento e falho de 2011 a 2014, que se tentou turbinar pelo intervencionismo estatal.

A crise de 2015, de natureza essencialmente fiscal, desmama subitamente o setor privado da ajuda do Estado. Depois de dois anos (2015 e 2016) em que houve quedas terríveis do PIB, acima de 3% em cada ano, a economia passou a crescer a um ritmo anual de apenas 1%.

Porém, apesar da marcha lenta da retomada, Volpon vê nela certa qualidade superior. É um crescimento dependente do setor privado, isto é, sem anabolizantes. Por ser financiado e determinado pelo setor privado, é um crescimento mais promissor em termos alocativos e de produtividade, na sua visão.

É verdade que, embora o consumo das famílias já esteja retomando a um nível mais razoável, o mesmo não acontece com os investimentos, “que ainda estão em recessão”, segundo o economista.

Mas há sinais positivos de que a retomada pode perdurar e, em algum momento, chegar ao investimento.

Enquanto o crédito direcionado continua em contração, o crédito a taxas de mercado já está se expandindo a quase 10% ano contra ano. O mercado de debêntures saiu de pouco mais de 6,5% do PIB em 2017 para quase 9,5% em 2019. As emissões primárias de ações este ano já chegam a R$ 54 bilhões, próximo dos R$ 60 bilhões de 2017, o recorde desde 2012.

Em termos de cenário externo, entretanto, em linha com o UBS, Volpon tem uma visão bastante cautelosa. Ele considera bem possível uma recessão global, e vê o conflito comercial entre Estados Unidos e a China como o início de um processo de efetivo recuo da globalização e de fechamento de economias.

Assim, mesmo com condições promissoras para a continuidade da retomada brasileira em 2020, os ventos externos vão atrapalhar. A partir de 2021, entretanto, ele acha que o País já terá melhorado o suficiente para crescer mais rapidamente, aproveitando-se da ociosidade persistente da economia.

Uma pré-condição, porém, é a continuidade da agenda de reformas da economia, especialmente aquelas ligadas à eficiência e produtividade, como a reforma tributária e as medidas de melhora do ambiente de negócios.

“Não basta entregar a economia ao setor privado para voltar a crescer, é preciso também melhorar as condições para que o setor privado invista e se expanda”, conclui o economista do UBS.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/10/19, segunda-feira.

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