Volta do ciclo econômico?

Inflação é a bola da vez nos Estados Unidos, mas desaceleração pode ocupar o palco na sequência.

Fernando Dantas

24 de janeiro de 2022 | 23h05

O cenário de quatro aumentos de 0,25 ponto porcentual (pp) da taxa básica de juros americana (Fed Funds) em 2022 parece já estar digerido pelo mercado como uma aposta de muitos analistas.

Na reunião do FOMC, comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA), na terça e quarta-feira desta semana, espera-se que a comunicação prepare um possível aumento inicial dos Fed Funds no próximo encontro, em março. Também é esperado que o Fed comece a diminuir seu balanço, isto é, a vender títulos de longo prazo, ainda este ano.

Em relatório divulgado no sábado, o banco de investimentos Goldman Sachs projeta quatro altas de 0,25pp dos Fed Funds em março, junho, setembro e dezembro.

Em termos da redução do balanço, a instituição prevê uma rápida aceleração até estabilizar no nível de vendas mensais de US$ 100 bilhões. Esse ritmo reduziria o balanço do Fed dos atuais US$ 8,8 trilhões para algo entre US$ 6,1 tri a US$ 6,6 trilhões em dois anos ou dois anos e meio. A estimativa do Goldman Sachs é que esse programa de “aperto quantitativo” elevaria a taxa de juros de dez anos em 0,3pp, mas parte disso já pode ter sido antecipada pelo mercado.

Porém, com a inflação apertando, o banco de investimento vê risco de mais aperto nos Estados Unidos este do que o seu cenário básico. Aquelas quatro altas dos Fed Funds projetadas, na verdade, correspondem ao FOMC elevar a taxa básica, a partir de março, a cada duas reuniões. Portanto, sem alta nos encontros de maio, julho e novembro.

Mas com a ômicron retardando ainda mais o retorno à normalidade das cadeias de oferta, salários aumentando num ritmo anualizado de 5% a 6% e índices e núcleos de inflação continuando a vir salgados, o Goldman Sachs contempla a chance de aumentos consecutivos dos Fed Funds em março e maio, apontando para mais de quatro altas no ano. Ou uma antecipação da redução de balanço. Mas não parece ser o que está na mesa do Fed neste instante.

É certo, de toda forma, que a volta da inflação está dando o tom das principais preocupações econômicas e políticas nos Estados Unidos no momento. É um dos fatores, inclusive, por detrás da má fase do presidente Joe Biden, em termos de popularidade e das muitas críticas que vem recebendo.

Como notou em relatório divulgado ontem o economista Michael Wilson, estrategista de ações do Morgan Stanley, o retorno da inflação “é uma grande mudança para o Fed, que vem combatendo o risco de deflação por mais de vinte anos”.

Mas Wilson aponta o outro lado do combate à inflação, sobre o qual ainda não se está falando muito, mas que é o padrão dos ciclos econômicos: a desaceleração da atividade. Com o possível fim da pandemia em vista – ele se refere à ideia de que isso possa ocorrer após o ciclo da ômicron, mais intenso porém mais curto do que o das variantes precedentes –, saem também de cena os superestímulos fiscal e monetário extraordinários.

A normalização das cadeias produtivas vai ajudar a combater a inflação, mas o economista considera também que a demanda pode perder uma camada artificial, típica de fases de desabastecimento. Como ele explica num relatório de novembro, quando há falta sistemática de produtos e insumos, “há uma propensão a fazer encomendas duplas e mesmo a reter mais estoques até que a oferta se torne confiável”.

Assim, o ciclo econômico atual poderia ser rápido, com a desaceleração vindo logo em seguida ao momento de superaquecimento. Nesse sentido, fazendo um paralelo com o ocorrido após o fim da segunda guerra mundial, o economista vê a possibilidade de que, pós-pandemia, termine a fase de “estagnação secular” – crescimento, inflação e juros muito baixos –, com a volta de ciclos econômicos mais agudos e agitados.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/1/2022, segunda-feira.