“Vote agora, saiba depois”

Em entrevista à revista Time, Lula diz que não discute políticas econômicas antes de ganhar a eleição. Brasil naturaliza absurdo de candidato que explicita que não vai revelar seus planos na hora de pedir o voto.

Fernando Dantas

04 de maio de 2022 | 19h11

Na entrevista que foi capa da revista Time, recém-publicada, Lula diz (o colunista traduziu do inglês) que “eu sou o único candidato cuja política econômica não deveria preocupar as pessoas, porque eu já fui presidente duas vezes. Nós não discutimos políticas econômicas antes de ganhar as eleições. Em primeiro lugar, você tem que ganhar as eleições”.

Mais adiante, Lula diz que “você tem que entender que em vez de perguntar o que eu vou fazer, apenas veja o que eu já fiz”.

As declarações do candidato favorito só não chegam a ser absurdas – não revelar durante a campanha como vai governar o país numa área fundamental como a economia – porque a sociedade brasileira de certa forma já “naturalizou” que política é apenas manipulação cínica do eleitorado.

Os eleitores que não nutrem sentimentos de fidelidade canina por Lula, mas acabarão votando nele ao menos no segundo turno por preferi-lo a Bolsonaro, provavelmente se sentirão no lucro se o petista após ganhar (caso ganhe) “revelar” um projeto econômico que fique de pé.

Não dá nem para sonhar com aquela agradável experiência de democracias maduras em que se vota num candidato porque se concorda com seus planos. O que Lula propõe é votar primeiro e concordar – ou discordar – depois.

Lula tem um contra-argumento para essa crítica, e que foi sintetizado de forma precisa, na matéria da Time, pelo consultor político Thomas Traumann: “Lula na realidade não apresentou um plano para o futuro. Por enquanto, ele está apenas apresentando a ideia de que ele foi um presidente melhor que Bolsonaro”.

Em essência, o candidato petista está dizendo que seu governo será bom porque ele repetirá o que foi feito na última fase positiva da economia brasileira, que ocorreu durante seus dois mandatos.

Se ele acertou uma vez, acertará de novo, e as pessoas não precisam ficar incomodando com perguntas, pedindo detalhes. Há uma pletora de razões pelas quais essa tese é furada.

Em primeiro lugar, o período correto de análise não é 2002-2010, mas sim 2002-2016, incluindo, portanto, a tenebrosa recessão de 2014-16, durante a qual parte considerável parte dos notáveis avanços socioeconômicos dos seus dois mandatos foi perdida.

Lula criou a Dilma política, candidata e presidente. Além disso, convenceu-a a manter Guido Mantega no Ministério da Fazenda.

As raízes dos erros da nova matriz econômica que – junto com o fim, no primeiro mandato de Dilma, do boom de commodities – levaram à recessão de 2014-16 foram plantadas por Mantega e outros nomes da equipe econômica no governo Lula, especialmente a partir da extensão desnecessária e populista da política anticíclica (correta de início) na crise financeira global de 2008-09.

É certo que Lula é um político muito melhor do que Dilma, e um gestor muito mais pragmático, e possivelmente teria corrigido a rota – chegou inclusive a sugerir a substituição de Mantega – desastrosa da política econômica a partir de 2012.

Feita essa ressalva, porém, não dá para atribuir a Lula 100% dos louros dos bons tempos dos seus mandatos e eximi-lo 100% do fiasco socioeconômico ao fim da era petista no governo federal.

A política econômica variou enormemente com Lula no poder e mais ainda quando se considera o período da sucessora por ele escolhida. Além disso, a conjuntura atual é muitíssimo diferente daquela dos governos petistas. Por isso, o candidato hoje favorito tem o dever político e moral de explicar os seus planos (isso não quer dizer que vá fazê-lo, provavelmente não).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/5/2022, quarta-feira.