Voto do rico versus voto do instruído

Trabalho de Piketty e coautores mostra mudança no padrão do voto em país rico desde a 2ª Guerra. Nos anos 60, mais dinheiro e mais instrução levavam a voto na direita. Hoje, mais dinheiro faz o mesmo, mas mais instrução aumenta preferência pela esquerda.

Fernando Dantas

15 de junho de 2021 | 12h15

A polarização política em muitas democracias no mundo atual é um fato inegável. Porém, tomando-se os países avançados, em que houve grande aumento da desigualdade nas últimas décadas, é curioso que essa polarização não se dê de forma mais intensa em termos da classe social mais pobre e menos instruída contra a classe mais rica e com maior capital humano.

O trumpismo, por exemplo, une ricaços com vontade de pagar menos impostos a brancos de classe trabalhadora que veem os produtos e os trabalhadores chineses como responsáveis por sua precária situação de emprego.

Recente estudo de pesquisadores do “World Inequality Database”, base de dados sobre a evolução histórica da distribuição de renda e riqueza em diversos países (ligada ao trabalho de economistas como Thomas Piketty, um dos autores do ‘paper’), mostra que o fator que mudou o jogo das preferências eleitorais no pós-guerra é a educação.

Assim, nas décadas de 60 e 70, tomando-se 21 países avançados na Europa, América do Norte e Oceania, os partidos de esquerda recebiam o voto dos menos ricos e dos menos educados, enquanto o oposto ocorria em relação aos partidos de direita.

Essa correlação foi sendo alterada até os dias atuais pela mudança do papel da educação no voto, com o fator ‘maior instrução’ tendendo gradualmente a fazer com que as pessoas votassem na esquerda. As bandeiras identitárias podem estar ligadas a essa tendência.

Assim, segundo Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, autores do trabalho, saiu-se de um sistema partidário baseado em classes sociais para um sistema que eles chamam de “multi-elite”.

Há a chamada “elite mercantil” e a “elite brâmane”. A primeira são os mais ricos, condição que tende a fazer com que se vote na direita. A segunda (alusão à casta mais instruída na Índia) reúne os mais bem instruídos, condição que tende a fazer com se vote na esquerda.

É esse racha entre renda e educação que impediu que a polarização dos tempos atuais se desse em linhas estritamente de classe.

Outro fator que atuou na mesma direção foi a emergência dos partidos verdes e anti-imigração. Os primeiros, que são alinhados à esquerda, tendem a ter mais votos das pessoas mais educadas. Os últimos, de direita, são mais populares entre os menos educados.

O trabalho de Piketty e coautores é ambicioso. Eles organizaram uma base de dados daqueles 21 países com pesquisas eleitorais e informações socioeconômicas dos respondentes relativas a mais de 300 eleições entre 1948 e 2020.

Adicionalmente, cruzaram as conclusões tiradas desse exercício (confirmando-as) com outra grande base de dados política, relativa a manifestos de partidos, a partir de programas partidários desde o fim da segunda guerra mundial.

O trabalho de Gethin, Martínez-Toledano e Piketty é extremamente rico e variado (com os habituais alertas sobre seus próprios limites e potenciais falhas).

Mas talvez seu exercício mais relevante seja o de comparar como evoluiu o voto nessas democracias ocidentais na perspectiva das clivagens mais ricos/menos ricos e mais educados/menos educados, do final da década de 50 até hoje.

Para investigar esse tema, os autores elaboraram um indicador simples: a diferença entre o porcentual dos 10% mais ricos que votam na esquerda e o porcentual dos 90% mais pobres que votam também na esquerda. E, de forma idêntica, a diferença entre a proporção dos 10% mais instruídos e dos 90% menos instruídos que votam na esquerda.

O resultado relativo à direita sai por subtração (eles alinharam todos os partidos em dois grupos: “social democratas e partidos afiliados”, isto é, esquerda; e “conservadores e partidos afiliados”, isto é, direita)

O exercício “controla” estatisticamente para diferenças de educação/renda (respectivamente na investigação sobre renda e educação), idade, gênero, religião, frequência a culto, população rural e urbana, região, raça/etnicidade, situação de emprego e status marital. Isso quer dizer que não são essas diferenças que estão influenciando os resultados obtidos, mas apenas o que se quis efetivamente medir (renda num caso, grau de instrução no outro).

Se o indicador mencionado acima for zero, quer dizer que renda ou grau de instrução não fazem diferença na forma como os 10% mais ricos/instruídos e os 90% mais pobres/instruídos votam. O porcentual que vota na esquerda – e, por subtração, na direita – é o mesmo nos dois grupos.

Se for positivo, quer dizer que os mais ricos ou os mais instruídos tendem a votar mais na esquerda (a proporção de votos destes grupos é maior do que a dos 90% mais pobres/menos instruídos). Se for negativo, vale o inverso.

Em relação ao grau de instrução, os autores encontram o indicador em -15 nos anos 60 (mostrando que mais instrução favorecia a direita), -10 nos anos 70, -5 nos anos 80, zero nos 90, +5 nos 2000 e +10 entre 2015 e 2020 (neste último caso, indicando que mais instrução passou a ser uma característica favorável ao voto na esquerda)

Já no caso do tamanho da renda, quase não houve mudança. Nos anos 60, o índice era de -15, mostrando que ser rico era favorável ao voto na direita. Na última década, era de -10, indicando a mesma tendência, reduzida apenas muito levemente após 60 anos.

Os autores notam que, sem o controle estatístico, cria-se a impressão de que a tendência de os mais ricos votarem na direita caiu bem mais desde o imediato pós-guerra. O indicador passa de -20 nos anos 60 para -5 em 2015-2020. Mas, na verdade, como não há controle estatístico, o que está provocando a maior parte dessa queda é o maior grau de instrução dos mais ricos, e não a maior renda.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/6/2021, segunda-feira.

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