Zona do euro vai tentar arrancar de novo

Fernando Dantas

03 de outubro de 2014 | 20h04

No dia (2/10, quinta-feira) em que o Banco Central Europeu está anunciando seu programa de afrouxamento quantitativo para tentar reavivar uma zona do euro com crescentes sinais de estagnação, Lorenzo Bini Smaghi, ex-membro do comitê executivo do BCE, assina um artigo no portal do Financial Times em que diz de forma muito explícita que o melhor a se esperar da nova iniciativa é que contribua para reforçar a tendência de desvalorização do euro perante o dólar.

O comentário é reminiscente das invectivas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, contra os programas anticonvencionais de injeção de liquidez pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), classificados de atos de “guerra cambial”. A diferença agora é que, a julgar pelas palavras de um ex-dirigente do BCE, não é preciso nem disfarçar o que seria o verdadeiro objetivo.

A situação da zona do euro é sintomática da malaise que atormenta o mundo rico desde a grande crise global, e que de forma muito simplificada pode ser resumida como o risco de cair numa armadilha de liquidez deflacionária ao estilo da que enredou a economia japonesa desde o estouro da bolha nipônica mobiliária e imobiliária na virada entre as décadas de 80 e 90 – e da qual até hoje o país oriental não conseguiu sair.

Estados Unidos, Grã-Bretanha e outros países da órbita anglo-saxã parecem ser, no mundo desenvolvido, o grupo que até agora melhor vem driblando os riscos da estagnação deflacionária. Ainda assim, sucessivas rateadas na trajetória para a retomada plena da economia americana mostram que o risco de retrocesso não desapareceu. Certamente a ultracautelosa política monetária do Fed em relação aos riscos de atividade é um sinal de que os dirigentes da política monetária dos Estados Unidos estão bem atentos ao perigo deflacionário.

Na Europa, porém, há fatores que complicam muito a resposta da política monetária, como o arranjo institucional muito mais complexo do BCE – em que questões técnicas se misturam a disputas entre interesses de nações soberanas – e a ideologia ultraconservadora herdada do Bundesbank (banco central alemão). A isso se somam a crise violenta por que passaram os países da periferia (e que apenas mudou de aguda para crônica), associada à carapaça cambial do euro, e a própria “euroesclerose”, os entraves estruturais que amarram muitas das economias do Velho Continente.

O resultado de todas essas complicações e mazelas é que o desempenho da zona do euro na marcha de volta à normalidade no período pós-crise global tem se revelado muito pior que o das nações anglo-saxãs.

Assim, a inflação da zona do euro caiu desde 2011 e 2012 de um nível superior a 2% para algo em torno de 0,5%, enquanto a economia desacelerou-se para um ritmo lentíssimo. O pouco crescimento registrado recentemente deveu-se em grande parte à demanda externa, com o saldo em conta corrente da zona do euro saindo de zero em meados de 2012 para um nível acima de 2% no final de 2013.

O problema agora é que mesmo o impulso externo tem retrocedido, e as exportações desacelerado. Assim, o risco de uma longa estagnação em ambiente deflacionário parece estar mais vivo do que nunca. Diante da resistência da Alemanha – país central e motor econômico do bloco – em agressivamente estimular sua demanda doméstica com medidas fiscais e política salarial, a saída da zona do euro continua a ser a de atacar a demanda externa.

Com a expectativa de que o processo de elevação das taxas básicas de juros nos Estados Unidos e Reino Unido comece em breve, no decorrer de 2015, é de se esperar que a desvalorização do euro dê suporte à “saída externa” para crise do bloco da moeda única. Em termos globais, entretanto, a Europa contribui para perenizar a fraqueza de demanda no mundo rico, o que é um empecilho à recuperação da economia mundial e um reforço aos que apostam na hipótese da “estagnação secular”.

O consolo, para o Brasil, é que, num ambiente internacional em que as taxas de juros ainda permaneçam muito baixas por um tempo razoável (mesmo com o ajuste americano e britânico), todos os gatos parecem pardos no mundo emergente, e a tolerância dos capitais internacionais com desequilíbrios macroeconômicos é maior. Isto não quer dizer, porém, que qualquer nível de desarranjo é permissível, e o nervosismo dos últimos dias indica que o Brasil está testando os níveis de complacência dos investidores.

Na verdade, se a liquidez internacional perdurar mais ou for drenada mais lentamente do que o previsto, o Brasil pode se beneficiar de um ambiente mais amistoso para fazer o seu ajuste econômico que, neste caso, poderia ser comparativamente menos doloroso. O risco, porém, é que qualquer trégua seja encarada como um motivo para não fazer o ajuste, o que provavelmente seria desastroso.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/10/14, quinta-feira.

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