Bastidor: Dilma e Tombini queriam juro civilizado, mas a realidade…

Dilma Rousseff convocou Alexandre Tombini para levar o juro brasileiro para os padrões internacionais. Houve esforço do Banco Central e do Palácio do Planalto para a empreitada, mas o plano saiu dos trilhos com promessas não cumpridas e descontrole das contas públicas que culminaram na maior crise econômica em décadas

Fernando Nakagawa / Twitter @fnakagawa

09 Junho 2016 | 12h50

Desde antes de tomar posse, uma das prioridades de Dilma Rousseff era levar o juro para um patamar “civilizado”. Para a empreitada, Alexandre Tombini sempre foi encarado como peça fundamental. Com o entendimento de que o Ministério da Fazenda executaria uma política fiscal rígida, o economista liderou o movimento que derrubou a Selic para o menor patamar da história. O plano, porém, saiu dos trilhos. Promessas da Fazenda não foram cumpridas, o governo tentou controlar artificialmente a inflação e, no auge da crise, Tombini ameaçou largar o barco. Apesar dos inúmeros problemas, a atual direção da casa deixa o banco com a sensação de dever cumprido: a inflação cai, o estoque de swaps diminuiu e as reservas não foram tocadas.

Alexandre Antonio Tombini chegou ao ápice da carreira de servidor público no fim de 2010, quando a recém-eleita presidente Dilma Rousseff anunciou que o diretor de Normas do BC seria o substituto de Henrique Meirelles. À frente da instituição que ainda luta pela independência formal do governo, Tombini elevou o juro nas cinco primeiras reuniões e não frustrou a promessa feita pelo antecessor. “O gaúcho é dureza”, disse Meirelles na cerimônia de entrega do cargo a Tombini no início da década.

A estratégia dura do economista nascido em 9 de dezembro de 1963 em Porto Alegre, porém, durou pouco. O oitavo mês do governo sequer tinha acabado quando, em 30 de agosto de 2011, Dilma disse que “começava a ver a possibilidade de redução do juro”. No dia seguinte, o BC anunciou um inesperado corte da taxa. Como um carro que corre em uma direção e muda de rumo inesperadamente, o episódio ficou conhecido como “cavalo de pau”.

Hoje, um dos membros da diretoria que deixa a casa defende ao Broadcast que a decisão foi tomada na época porque havia o entendimento de que a inflação não era uma ameaça. Ao mesmo tempo, o governo prometia um esforço fiscal suficiente para manter a demanda controlada. Dias antes, inclusive, o então ministro Guido Mantega anunciara aumento da meta de superávit primário de R$ 10 bilhões. A ação foi entendida como uma medida para “abrir caminho” para o corte do juro. “Apesar das dificuldades mensais, prevalecia a expectativa de que a meta seria cumprida”, diz esse diretor. Aquele foi o primeiro corte de um longo ciclo de reduções que levou a Selic de 12,5% para 7,25%, menor patamar visto até hoje.

Os meses seguintes, no entanto, mostraram gradativamente que as promessas não seriam cumpridas. O esforço fiscal do governo foi sendo ligeiramente afrouxado e em agosto de 2012 o superávit primário já era mais de 1 ponto do PIB menor do que quando o corte de juro começara. “A Fazenda não entregou o prometido”, lamenta o diretor. Mesmo assim, o BC continuou a reduzir o juro.

O Palácio do Planalto e a equipe econômica pareciam entender que o esforço fiscal não era suficiente e uma reação se fazia necessária. A inflação anual – que chegou a tocar na casa dos 4% no início de 2012 – voltava a subir e já flertava com os 6%.


Elevador. 
Juro até caiu, mas inflação renasceu / André Dusek/Estadão

O governo federal começou, então, um plano heterodoxo. Em discurso na televisão para o 1º de maio daquele ano, Dilma cobrou bancos privados e disse que era “inadmissível” que o Brasil tivesse o maior juro do mundo. Novamente na televisão, dessa vez para o 7 de setembro, anunciou mudança de regras do setor elétrico para a queda do preço da energia. Mesmo sem discurso, os preços da gasolina seguiam estacionados e não acompanhavam o mercado externo. Tudo para conter os preços e manter os juros civilizados.

Mas nada disso foi suficiente e, em março de 2013, a inflação anual voltou a superar o limite máximo da meta de inflação ao alcançar 6,59%. O fato foi o gatilho que faltava para, a contragosto do governo, o BC voltar a subir o juro. Na reunião seguinte, o Comitê de Política Monetária subiu o juro em 0,25 ponto. A exemplo do que aconteceu  no episódio do “cavalo de pau”, o mercado foi mais uma vez surpreendido. Dessa vez, porém, no sentido contrário, pois esperava uma ação mais firme.

Mais uma vez, Dilma também falou na véspera e comentou que “qualquer necessidade” de alta da Selic seria, naquele momento, “em patamar bem menor que no passado”.

Capital político. O que aconteceu nos meses seguintes deixou clara a percepção no BC sobre a dinâmica do capital político entre os entes públicos. Quando o Copom iniciou o ciclo de aumento do juro em 2013, o Brasil começou a viver um período inédito de protestos populares. Inicialmente contra o aumento das tarifas de transporte urbano, o movimento ganhou força com a população insatisfeita com os serviços públicos, a corrupção e a economia que já engasgava. Resultado: a popularidade de Dilma Rousseff despencou. Pode não parecer, mas isso ajudou o Banco Central.

“O capital político flui. A presidente perdeu muito capital político e isso foi redistribuído entre os demais poderes, inclusive o Banco Central. Durante a campanha eleitoral (de 2014), ela voltou a ganhar algum capital, mas que logo se perdeu após a reeleição com o avanço das investigações da Lava Jato. Isso fez o capital político refluir novamente. Com mais capital político, foi possível ter uma atuação mais técnica”, explica o diretor. Assim, a autoridade monetária voltou a subir gradualmente o juro até abril de 2014.

A reeleição, como disse o diretor, até trouxe mais capital político à presidente. A inflação, porém, estava novamente acima do teto da meta em outubro de 2014. Então, o BC surpreendeu mais uma vez o mercado e subiu o juro na semana seguinte ao segundo turno que elegeu Dilma. Reeleita, a presidente estava disposta a arrumar as contas. Convenceu Joaquim Levy a liderar o ajuste no Ministério da Fazenda: preços administrados foram corrigidos, a inflação subiu e, como manda a literatura econômica, o Banco Central continuou a elevar os juros.

Mas a recessão, o rombo cada vez maior nas contas públicas, o avanço da operação Lava Jato, que alcançava construtoras como a Odebrecht e Andrade Gutierrez, e a deterioração da relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso criaram um cenário que parecia irreversível já em 2015: reformas não avançavam no Legislativo, o governo ainda tinha resistência em cortar gastos, a recessão impedia o aumento da arrecadação e famílias e empresas pararam de consumir e investir.

A economia estava em um beco sem saída.

Havia a preocupação até de que as contas públicas estivessem tão deterioradas a ponto de que aumentar juro não resolveria o problema e poderia inclusive piorar o quadro. É a chamada dominância fiscal. “Entre agosto e outubro, basicamente ficamos trabalhando pela estabilidade financeira do País porque não sabíamos onde a situação iria parar. Cresceu o debate sobre a dominância fiscal, o que gerou muita polêmica e discordância no Banco Central. Mas foi possível estabilizar a situação, ainda que com juro, câmbio e inflação em um patamar elevado”.

Sem ou com dominância fiscal, a inflação anual voltou a registrar dois dígitos no fim de 2015 pela primeira vez em mais de uma década.


Ameaça. Quiserem as reservas e Tombini ameaçou sair  / André Dusek/Estadão

 

Ultimato. O avanço da crise política fez a situação voltar a piorar e, em março, Dilma sondou ideias mais heterodoxas do ponto de vista econômico. Uma das propostas surgida no Partido dos Trabalhadores era usar as reservas internacionais para aumentar os investimentos na economia. “Tombini disse claramente: ‘Se for usar as reservas, me demite antes’. O BC tem um apreço muito grande pelas reservas, pois foi algo difícil de se construir. É como um filho para muita gente”, compara o diretor.

Com popularidade da presidente Dilma baixíssima, Tombini foi ouvido e continuou no cargo e conseguiu trabalhar com “atuação técnica” nos últimos meses. A inflação começa a dar sinais de desaceleração, o estoque de swaps cambiais caiu razoavelmente e o real voltou a se apreciar. Esses três sinais trouxeram alívio. Muito desse resultado, porém, é gerado pelo que acontece fora do Brasil. “Não dá para dissociar. Os Estados Unidos não subiram o juro como muitos esperavam e isso nos ajudou muito. Se o Federal Reserve tivessem sido mais ‘hawkish’ (pouco leniente com a inflação e propenso à alta do juro), é provável que tivéssemos um problema mais sério. Acho que também temos de agradecer Janet Yellen”, diz o diretor.

Reportagem publicada no Broadcast, serviço de tempo real da Agência Estado